sábado, 14 de fevereiro de 2015

A Padaria do Inferno

O inferno não era como todos imaginavam. Claro, havia aquela intensa fantasia de que o diabo era um cara do mal que vivia toda a sua eternidade capturando almas inocentes - nem tanto assim - para que fizessem parte do seu rebanho de ovelhas indomáveis. Ora, qualquer um poderia acreditar em tais fábulas, mas não era bem assim que funcionava no lar do Anjo do Mal.

O diabo, também conhecido como Bob, trabalhava durante vinte e quatro horas em uma espécie de lanchonete no centro de uma cidade qualquer no meio do nada, ao lado de uma praça um pouco abandonada em que crianças jogavam basquete de uma maneira totalmente contra os princípios do esporte. Muitos diziam que burlar as regras era coisa do capeta. Na verdade, burlar as regras significava viver a vida de maneira um pouco mais arriscada; mas andar dois passos a mais em uma quadra sem quicar a bola dificilmente encomendaria um quartinho no hotel de Satanás. Enfim, a lanchonete acomodava cerca de trinta pessoas sentadas em mesinhas arredondadas que ficavam perfeitamente dispostas em uma sala um pouco maior do que um quarto de uma casa razoavelmente grande. Bob era o gerente, e com isso você já pode concluir muita coisa.

O fato de Bob, o Diabo, ser gerente de uma lanchonete na Terra não era apenas uma coincidência. No início dos tempos, antes do mundo ser mundo, antes do anjo cair dos céus e se tornar o vilão, tudo era um pouco mais sereno, e diversas histórias foram elaboradas a partir de acontecimentos em que as criaturas da criação vivenciaram. Para que não entrassem em um tédio eterno, o Anjo do Mal e o Anjo do Bem buscaram ter suas próprias tarefinhas - coisas que gostavam de fazer. O Anjo do Mal, conhecido como Diabo ou Bob, era muito fã da arte de manufaturar pães. Ele se deliciava em meio à farinha e os ovos e toda a confusão que a massa se transformava após a receita ficar pronta. Muitos dizem que não havia pão melhor do que o que o diabo amassava, e talvez isso fosse verdade. O Anjo do Bem, que não tinha um nome, por outro lado, adorava dar voltinhas por aí com a sua caminhonete cheia de doces para vender. O pobre coitado logo percebera que fazer isso em um mundo sem qualquer habitação era burrice.

Mas o diabo e sua padaria sempre continuaram em pé. O diabo amassava o pão, comia, dava um pedacinho para o Anjo do Bem, que se sentia culpado por comer algo tão pecaminoso, mas mesmo assim aproveitava e lambia os lábios toda vez que experimentava aquela manifestação do céu na boca - o que deixava o Anjo do Mal extremamente ofendido.

A padaria foi crescendo aos poucos, assim como o mundo, ao ganhar milhares de pessoas um pouco depois da sua criação. A maioria era cliente na empresa do diabo, e seus pães só faziam mais sucesso. Gente dos nove círculos do inferno iam até o estabelecimento de Bob para conferir qual era daquele alimento tão procurado. Ele estava em chamas!

Depois de um tempo, ao perceber que a sua tarefa estava cumprida, o Anjo do Mal admitira para si mesmo que não estava mais feliz com aquele trabalho. Calçara as suas botas de couro e partira em uma viagem transcendental. Primeiro não sabia o que estava fazendo e até se questionara se aquela fora a sua melhor decisão. Dias em um local afastado do universo se passaram e o diabo, Bob, perdera as botas naquela jornada. Ninguém sabia qual a localização exata, mas era muito, muito distante.

Quando finalmente a sua peregrinação universal terminara, o Diabo, Bob, Anjo do Mal percebera que estava na Terra. Todos os seus caprichos, medos, desejos ficaram mil vezes maiores, assim como o seu espírito nostálgico, que o fazia sofrer pela perda da sua padaria há sei lá quantos milhões de anos. Agora estava ali, num shopping, administrando uma pequena lanchonete, criando tentações e produzindo delícias que fariam pessoas se sentirem culpadas por toda a eternidade.

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