quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Natal na Cidade no Meio do Nada

Lembro que fazia 13 graus quando acordei e olhei pela janela a chuva caindo. Fiquei durante vinte minutos observando as gotas apostando corrida e, ao final do caminho, juntando-se e transformando-se em um cristalino pingo, que continuava a sua jornada para chegar ao destino. Era um pouco tedioso, eu sei, mas aquilo me fazia feliz.

Também lembro de quando a mamãe gritara lá da sala e dissera que estava na hora de sair para a nossa viagem. Mamãe trabalhava todos os dias em alguma empresa chique - sabia que era chique, pois estava sempre vestida com algum terno bem recortado e de marca. A empresa dava os uniformes para os funcionários, ela dizia. Não tinha tanto dinheiro para pagar por algo, ao seu ver, fútil. Finalmente ganhara as suas férias, que não tirava há uns três anos. Foi assim que conseguira economizar para que fôssemos até uma cidadezinha engraçada no meio de um campo no final da estrada.

Minha memória tinha uma capacidade muito boa para marcar certos eventos da vida, geralmente muitos deles eram influenciados por causa das músicas em que ouvia na época. Toda vez, antes de viajar, pegava o meu celular e escolhia dez músicas para uma lista de reproduções - desta vez a nomeei como Lista de Reproduções para Ouvir Enquanto o Mundo Gira no Lado de Fora do Carro. Minha mãe tinha um Corvette preto de 1980 - não me pergunte por detalhes.

Até então, não tínhamos enfeitado a casa nem nada. Nunca imaginei que Mamãe gostaria de fazer algo, já que estava sempre ocupada com papeladas e livros e coisas-que-eu-não-entendia, mas quando fui até a sala percebi como uma casa completamente cinza havia se tornado um mundo mágico e colorido: árvore de Natal ao lado de um quadro que mostrava o Papai Noel sobrevoando alguma cidade aleatória; na mesinha de centro tinha um pinheirinho com uma estrela dourada na ponta; além de todas as luzinhas coloridas distribuídas pelo ambiente. Da cozinha vinha um cheiro ótimo de café recém passado e um bolo de cenoura com cobertura de chocolate.

- Myrella, você prefere algo além do bolo e café ou assim está bom? Na verdade, estava checando aqui e estas são as únicas coisas que nós temos para hoje. Já que vamos ficar um mês fora, achei mais sábio eliminar tudo da geladeira, distribuir aos vizinhos e aquela coisa. - Mamãe vestia um gorro verde de elfa e estava sorridente.

- Só faltaram as orelhinhas para completar, não é?

- Haha! Vamos, sente-se aqui, em alguns minutos já vamos para a estrada. As malas estão no carro, tudo está pronto. - Ela saiu caminhando com a sua xícara em mãos.

O caminho da nossa casa até a Cidade no Meio do Nada estava com um clima ótimo: praticamente vazio; o tempo geladinho, mantendo os 13 graus e oscilando para mais quando o sol resolvia sair no cantinho de uma nuvem - até resolvi ficar usando meias grossas de lã; e claro, ouvia a minha Lista de Reprodução, que acabou ficando em só uma música durante todo o caminho de longas cinco horas: One Day Like This, da banda Elbow.

A Cidade no Meio do Nada era belíssima: cercada de montanhas que não tinham previsão para acabar, era como se fosse um mundinho perdido que alguém mantinha limpo e que tinha habitantes legais. Lá fazia um pouco mais de frio - acho que porque era na serra e ficava mais perto do céu. O vento cortava os meus lábios enquanto caminhava pela rua.

Chegamos relativamente cedo, mais ou menos no meio da tarde, e resolvemos dar uma volta pela cidade para conhecer um pouquinho mais.

***

Durante a noite, Mamãe e eu saímos do hotel e fomos para a cidade. Estávamos hospedadas em um lugar chamado Montanhas de Pedras, porque estava, literalmente, dividindo espaço com uma montanha gigante. Os prédios do condomínio eram separados por este muro infinito coberto por árvores. O mais legal é que as pessoas costumavam enfeitá-las com diversas luzes e bolinhas natalinas.

O asfalto estava molhado, as poças acumuladas refletiam o vermelho e verde clássicos dessa época festiva. Minha mãe olhava para os lados, comentava alguma coisa sobre a história da cidade e o fato de que era um dos lugares que mais chovia durante o ano, e eu observava o outro lado, as pessoas - que eram poucas - e tentava encontrar algum tipo de biblioteca ou padaria para descansar.

- Mãe, o que você acha de irmos para lá? - Falei apontando para uma livraria, na verdade, mas Mamãe não estava por perto. Ela tinha sumido.

Saí para procurá-la, gritando o seu nome pelas ruas que ficavam cada vez mais geladas. A minha voz saía da boca como pequenas fumaças flutuantes e sumindo pelo céu cheio de nuvens, talvez juntando-se a ele. Minha visão ficava tão perturbada e nebulosa quando não sabia para onde deveria caminhar que nem notei que havia batido de frente com um garoto, praticamente da minha idade. Ele estava vestido como um professor muito velho: terno e gravata, toda a sua roupa marrom escura, meio xadrez. Usava uma boina na cabeça, que escondia os cabelos negros, malucos e bagunçados.

- Você está perdida? - Chamou a minha atenção.

- Hum… sim. Bem, não. - Lembrei que não deveria dar informações para estranhos.

- Tudo bem. Eu posso lhe ajudar a encontrar quem você perdeu. Mas primeiro, vamos para um lugar mais confortável… um pouco mais quente. Que tal?

- Você tem a minha idade. Está certo de que poderá me ajudar em algo?

- Tenho certeza. Vamos logo ali, não vai demorar muito - ele apontou para uma casinha de madeira espremida entre dois prédios.

A casa estava toda enfeitada para o Natal. Era normal, mas um pouco mais convidativa do que a minha. Até que era bem organizada, mas tinha um cheiro estranho de poeira e coisas velhas. No balcão ao lado da lareira havia uma série de porta-retratos com um senhor vestido exatamente com as mesmas roupas do garoto, que até o momento eu não sabia o nome.

- Como você se chama? - Perguntei enquanto ele olhava distraído em alguma estante na outra sala.

- Ah! Sim. Meu nome é Martin Träumen. E você?

- Sou Myrella Athair. Prazer!

- É todo meu! - Sorriu. - Myrella Athair, você gosta de viajar? - Ele se concentrava muito no meu rosto enquanto esperava a resposta. Sua sobrancelha arqueava para cima.

- Adoro! Mas… e a minha mãe?

- Certo, certo! Mas primeiro, preciso lhe mostrar uma coisa especial. Você parece ser uma garota muito especial. E bem, nem todas as pessoas conseguem me ver de primeira, o que é fantástico! Vamos até ali…

Fomos caminhando até uma salinha ao lado - a salinha em que ele observava a estante. Nela havia centenas de garrafinhas, todas posicionadas perfeitamente e organizadas com precisão. Em cada garrafa de vidro acontecia algo diferente: em uma, gotas deslizavam como se estivessem na minha janela; na outra, minúsculas nuvens moviam-se em uma velocidade impossível de decifrar; no cantinho da estante, uma garrafinha brilhava e soltava pequenos sons que lembravam trovoadas.

- Seja bem-vinda ao meu mundo! - Abriu os braços e apontou para as garrafas.

- Você faz o que, exatamente?

Quando perguntei, seus olhos caíram um pouco. Acho que ele esperava que a minha empolgação fosse maior, mas era um pouco difícil, pois apenas conseguia pensar em Mamãe. Tentei dar um sorriso um pouco mais animado, ele gostou muito disso.

- Sabe quando você está triste e fica pensando: ‘que maravilha se chovesse e eu pudesse ficar em casa o dia inteiro, debaixo das cobertas, sonhando, lendo, seja lá o que for?’ e, de alguma maneira, isso que você deseja acaba se tornando realidade? São pequenos momentos, não todos os dias, mas em um instante singular, quando você mais precisa, aquilo acontece de verdade. - Ele falava e batia as mãos para lá e para cá, quase saltitante.

- Sei… inclusive desejei exatamente isso hoje pela manhã! Eu queria muito viajar com um clima frio e chuvoso. Isso vai soar estúpido, mas foi você quem fez acontecer?

- Ha! Sim! Bem, as minhas garrafinhas. Veja, muitas pessoas guardam os seus livros, mantêm as suas aventuras em telas de computador, compartilham imagens nos seus álbuns, eu mantenho tudo o que mais tenho carinho em minhas garrafas, e presenteio quem merecer com um belo dia, dependendo da sua necessidade. Meu sobrenome pode significar sonho, mas também crio chuva, ou algum clima que você ache bacana.

- Você cria chuva? - Queria rir, mas ele acreditava tanto naquilo. E, ah, era Natal.

- Sim, claro! Como existiria chuva se não pel’O Criador da Chuva? Esse nome é bobo, eu sei. Mas é passado entre gerações, então meio que ficou assim mesmo.

- Você é tipo o Papai Noel da chuva? Ou do clima… ou sei lá?

- Exatamente! Sou o Papai Noel do sei lá!

Martin Träumen me apresentou diversas garrafas e mostrava como fazia para entregá-las: primeiro, ele abria uma vazia. Precisava se concentrar muito para que aquilo acontecesse. Diversos minutos passavam-se, e seus cabelos iam modificando, até mesmo o seu rosto, sua altura - como se ele envelhecesse na minha frente. Em pouco tempo eu estava chamando-o de Sr. Träumen.

Ele ouvia um sussurro dentro da garrafa e… pronto. Em minutos havia uma chuva, um sol, um tempo nublado esperando para que alguém o recebesse.

- Gostou? - Seu olhar velho era como um relâmpago difícil de encarar.

- Adorei! Posso fazer uma reserva?

- Hum… que tipo de reserva? - Perguntou com a mão no queixo.

- Você disse que eu sou especial e isso não acontece com todos. Eu gostaria de reservar toda véspera de Natal com chuva e um friozinho para descansar. É pedir demais?

- Não! Este é o melhor pedido que alguém pode fazer para mim. E você fez o meu Natal mais feliz.

Ele realmente concedera o meu desejo. Todos os anos, exatamente no dia 24 de dezembro, a manhã começava com uma chuva calma e ia até o final do dia. Encontrei Mamãe eventualmente, ela estava sentada no lado de fora de uma biblioteca me esperando. Segundo ela, eu disse que queria ver algo lá dentro e acabei me esquecendo de que tinha dito isso. Ainda não consigo dizer ao certo se ela estava falando a verdade ou apenas não quis me xingar nas suas férias.

Ainda lembro do garoto Träumen e o Sr. Träumen. Sempre quando chove penso que ele deve estar me ouvindo em algum lugar e gostaria de me acalmar, como se conversasse comigo. E eu o agradeço secretamente em um sussurro, pois também quero fazer o seu Natal, mesmo fora de época, um pouco mais feliz.

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