quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Nem tudo é literal


Aquela senhora lá ao fundo me olhava de um jeito muito dramático enquanto eu tentava ler um jornal que encontrei em cima de um banco qualquer no meio da praça. Pobre pedaço de papel, cheio de sangue, dor e lágrimas. Cheio de fezes de pombos, também. O jornal era novo, ainda daquele dia. Suas manchetes misturavam-se graças às gotas de chuva que caíam aos poucos naquela manhã. A senhora lá ao fundo continuava a me olhar.

Juro que tentei entender o que ela queria ou se apenas estava admirando alguém atrás de mim. Isso geralmente acontece. Você está passando pela rua e uma pessoa cumprimenta a outra, sua mão levanta, o sorriso aparece em seu rosto, então percebe que você não estava na conversa. Mas por mais que eu tentasse procurar, aquela senhora continuava me encarando.

Era muito peculiar, ela. Seus óculos pequenos ficavam na ponta do nariz o tempo todo - tirava-os apenas para limpar quando estavam úmidos -, um vestido longo e preto a protegia do frio e uma cartola impedia que seus cabelos ficassem molhados pela garoa.

Peguei o meu jornal, que na verdade não era meu, e fui embora. Parei em um lugar no meio da estrada que vendia chá de camomila e segui o meu caminho. Percebi, ao parar em uma faixa de segurança, que aquela senhora misteriosa continuava a me seguir. Poderia dizer que estava com medo. Seu olhar era bastante ameaçador. Mas a curiosidade estava vencendo a vontade de sair correndo naquele instante.

Os carros não paravam de passar, o trânsito estava infernal, e não havia previsão para que eu atravessasse aquela faixa muito cedo. Decidi mudar o meu trajeto. Peguei uma outra ruazinha que ficava em meio a casas que, de longe, pareciam estar coladas umas nas outras. Era uma espécie de beco que simulava a noite. Realmente escuro e sombrio - por algum motivo adorava isso e, sempre que tinha oportunidade, dava uma passadinha lá.

A mulher continuou vindo atrás de mim. Eu parei. Parei porque precisava parar. Parei porque a curiosidade estava tomando conta da minha alma. Era como imaginar a existência de um fantasma, mas ele realmente estar ali, conversando com você. Nunca acreditei em seres sobrenaturais ou destino ou qualquer coisa do tipo. E definitivamente aquela situação não se encaixava nestas categorias.

Virei e olhei. Ela estava a poucos centímetros de mim. Seu rosto praticamente colado ao meu, e seus olhos verdes brilhavam e refletiam a paisagem morta da escuridão do beco. Minha espinha estava gelada, minhas mãos com um suor incômodo que não parecia sair. Minha visão completamente hipnotizada pelo desejo de saber quem era aquela pessoa.

- Olá. - logo falei para tentar mostrar quem mandava naquele lugar.

- Olá. - sua resposta foi um pouco decepcionante, porém adequada. A voz daquela senhora era encantadora. Poucas vezes ouvi um som tão perfeito.

- No que posso ajudar? Vi que você estava me seguindo todo esse tempo. - tentei puxar conversa novamente.

- Bem, eu vi você parado naquele banco, com um jornal em mãos.

- Ah, sim! Encontrei ali jogado.

- É meu. - ela tirou a cartola e esfregou com a manga do vestido.

- Você quer de volta? - perguntei.

- Pode ficar. - sorriu. Seus dentes eram perfeitamente alinhados e brancos.

- Mas então, por que você me seguiu se não quer o jornal? - tentei perguntar novamente.

- Este beco… já vi você andando por aqui. Me pergunto o que tanto lhe fascina sobre ele. - ela observava tudo ao seu redor.

- Nada não. Bem, eu gosto da escuridão que ele proporciona.

- Escuridão… sua alma é bastante escura.

- Desculpe? - agora minhas mãos pareciam uma cachoeira de suor.

- Eu amo a sua alma.

- Certo. Bem, preciso ir. - falei apressadamente.

- Tudo certinho! Não esqueça de verificar a escuridão do seu interior. - ela aconselhou.

- Ahn, não vou, não. Obrigado!

Passando pelo beco tentei entender o que aquela mulher queria dizer sobre a minha alma ser sombria. Talvez estava usando uma metáfora, talvez apenas pregava uma peça em mim. Mas era como se agora um véu tivesse levantado do meu rosto. Tudo ao meu redor era cinza, cheio de flores negras, os prédios agora pareciam lápides com centenas de nomes escritos. Continuava tentando entender. Será que estava sonhando ou ficando louco? Meus olhos não acreditavam mais em si mesmos.

“Não estou morto” - falei para mim mesmo.

Disso eu tinha certeza. Como alguém tão vivo poderia estar morto?

“Não seja tão literal” - minha mente conversou comigo.

Uma voz gritou em meio ao nada, batia por todos os lados e vinha diretamente para o meu cérebro.

“Olhe para dentro de você”

Não havia explicação, talvez eu tivesse mesmo que verificar o que estava de errado dentro de mim. Ou talvez aquilo apenas fosse eu. Meus problemas, minhas angústias. Não sabia dizer muito bem.

A vida é feita de metáforas.

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