sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A Guardiã das Cidades do Tempo


Eu sempre imaginei estar vivendo em um mundo mágico. Talvez seja por causa da quantidade de livros de fantasia que eu costumo ler, e todos eles mostram diferentes universos que, provavelmente, não existem por aqui. Mas isso me faz ficar pensando sobre o meu mundo, a minha casa, o lugar em que eu vivo: será que para quem vê de fora nós também não somos apenas alguma história impressa em páginas? Meus pais insistiram que eu parasse de bolar essas teorias, porém não vejo o porquê de deixar de exercitar o meu cérebro de vez em quando.

Sabe quando você pensa que tudo ao seu redor não é real e que facilmente poderia fazer parte de alguma narrativa qualquer perdida em um baú escondido no porão de um barco naufragado? É mais ou menos assim como me sinto quando penso em toda a lenda do meu planeta. Veja bem, por milhares de anos todas as pessoas falavam nas Cidades do Tempo e sobre a sua importância. Estas cidades são basicamente lugares únicos em todo o universo, e em cada uma delas acontecem eventos aleatórios, ou muito específicos, tudo depende do ponto de vista. Explicando melhor: cada cidade prevê um acontecimento diferente para cada um dos seus habitantes, objetos, animais, enfim.

E para proteger as Cidades do Tempo existe uma Guardiã que fica dia e noite em seu escritório no alto de um casarão velho de madeira. Ela escreve, seleciona, apaga, desenvolve novas histórias, reorganiza eventos fora de sincronia, brinca com paradoxos, além de beber um gole de um líquido engraçado toda vez que mexe em alguma página dos seus livros. E é aqui que entra o que eu quero contar:

Por muito tempo imaginei que nunca conheceria as Cidades do Tempo, até cheguei a imaginar que nunca foram reais. Meus pais juravam que existiam, meus professores também - apesar de alguns terem várias dúvidas sobre a veracidade das lendas -, mas algo me chamou a atenção, e talvez isso seja pelo fato de que eu adoro livros: dentro de mim aquele sentimento de querer acreditar não parava de crescer. Sempre ouvi falar de que a Guardiã era sábia e querida, que todos os que a encontravam nunca queriam deixá-la novamente. Era uma senhora, praticamente, que vivia com a sua bolsa em mãos, seu casaco gigante até os pés e seu medalhão em forma de relógio pendurado no pescoço. Minha esperança era de que um dia ela apareceria no meu quintal e me levasse para ver as Cidades do Tempo.

Pouco tempo depois descobri que estas cidades na verdade estavam o tempo todo espalhadas pelo planeta e, para chegar em cada uma delas, deveria caminhar até um campo deserto no final da praça. Parecia fácil. E até foi. Mas o que eu não esperava era o portão gigante que guardava todos os segredos no seu interior. Parecia que nada havia do outro lado, pois o portão era apenas alguns pedaços de ferros colocados em meio ao deserto, mas era sempre possível enxergar, em uma pequena nuvem, o casarão em que a Guardiã ficava.

Acenei muitas vezes até chamar a atenção, e ela chegou até mim em pouco tempo. Era realmente como todos haviam descrito. Sua aparência era tranquila e simpática, vivia com um sorriso nos olhos, apesar de nunca mostrar os dentes.

- Olá.

Esta foi a primeira palavra que falou para mim. Antes que eu pudesse responder, completou.

- Você quer ver as Cidades do Tempo, não é?

- Se você permitir…

Muitas coisas aconteceram lá dentro, coisas que eu ainda contarei para você. Mas este foi o início, talvez o primeiro passo para provar que eu vivia em um mundo mágico. Mas o mais importante: eu sabia que era possível controlar o tempo com um livrinho e uma xícara de chá.

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