quinta-feira, 24 de julho de 2014

O estranho ônibus ao lado do cemitério


Era no final da rua escura que várias coisas estranhas aconteciam. Principalmente no cemitério ao lado do parque abandonado. Este cemitério geralmente recebia visitas de pessoas engraçadas, com chapéus pontudos e compridos, criaturas vestidas de preto e mordomos altos com o rosto branco caminhando sozinhos por cima dos túmulos, dando a impressão de serem crianças mais desenvolvidas do que o normal. Eu não ligava muito para isso, nem tinha tanto medo do que se passava pelo cemitério. Nunca cheguei a ir no Jardim das Pedras, e esta também não é uma história sobre ele. O que eu quero contar aqui é sobre o que acontece ao lado do cemitério, mais ao fundo da rua da minha casa, no fim da linha, onde nem os mais corajosos colocam o pé.

Eu não sou corajoso, e deve ser por isso que em uma noite decidi ver o que aquele mistério reservava. Antes, preciso contar qual é esse mistério e o motivo de eu ter ido durante a madrugada para investigar a tão falada lenda daquele lugar.

Era mais ou menos depois dos anos vinte, quando o meu avô tinha a minha idade - uns dez anos - que toda essa história começara a ser espalhada de boca em boca, e aos poucos havia sido distribuída para livros e programas de televisão; esses nunca faziam as reportagens no local. Tinham muito medo. Enfim, todos dizem que há um ônibus abandonado ao lado do Jardim das Pedras, e é verdade! Eu já vi o tal do ônibus; é coberto de musgos, cinza, destruído, sem vidros, sem qualquer coisa. Abandonado. Estragado. Mas o mais bizarro é que o ônibus nunca está visível durante o dia. Ele some. E por isso ninguém acredita nas histórias, mas também nunca chega perto.

Eu já vi. Foi em uma noite em que não consegui dormir, coloquei a mochila nas costas e caminhei em silêncio até o veículo. Vi o mordomo saltitando no cemitério.

- Alô! - ele disse.

Nem respondi. Continuei por mais alguns metros e estava ao lado do perigoso monumento assustador da rua: o ônibus estragado. Por fora ele era normal, mas o que surpreendia era o seu interior.

Não vou dizer que era maior por dentro, pois isso é um clichê de várias histórias que contam por aí. Mas sim, ele era um pouco mais aconchegante no seu interior. Pense num circo. Pense num cassino. Ou talvez em um hotel muito bonito com tapetes vermelhos na sala de espera. Em cada lugar onde os bancos deveriam estar havia pequenas cabines nas quais as pessoas podiam entrar, e nelas viajar para diferentes histórias de ficção. Continuei achando tudo isso muito normal e com cara de sonho, então falei com o motorista, que vestia um terno preto e uma gravata borboleta azul.

- Senhor, como funciona este ônibus?

Ele me olhou vidrado, sorriu mostrando os dentes podres e largou uma moeda dourada na minha mão.

- Esta é especial, menino. - falou, e ligou o ônibus.

Fui até a parte de pagamento da entrada e depositei a moeda dourada no buraquinho. Algumas opções apareceram na minha frente escritas em pequenas placas de papel manchadas de tinta azul.

“A Fonte da Escuridão”

“Os dez mortos da pirâmide”

“Estrangeiros do Lago”

Escolhi “Estrangeiros do Lago” e esperei para ver o que aconteceria. Aconteceu! O ônibus começou a andar e todas as pessoas que estavam nele sumiram. Enquanto ele viajava por uma estrada escura e flutuante, com sinais brilhantes percorrendo as janelas, como estrelas em alta velocidade, pessoas entravam através das portas da frente e do fundo.

Eram criaturas azuladas, encharcadas, que carregavam maletas de empresários e sentavam-se nos bancos como se fosse um dia normal nas suas vidas. O ônibus parou e eu pude descer para ver como era o mundo lá fora.

Tudo era igual como na minha rua, tirando o fato de que eu estava debaixo d’água, mas podia respirar perfeitamente. O sol lá em cima brilhava e eu consegui nadar até a superfície. Era um lago, mas ao redor haviam apenas florestas normais. Nada de muito diferente.

Voltei para o interior da água e caminhei pela minha rua. Passei por peixes, homens segurando redes de pescas - não entendi essa parte - e mulheres conversando entre si sobre a economia. Mas o que me surpreendeu foi o retorno para a minha verdadeira cidade.

Estar em um lago era muito legal, mas ainda não respondia o mito de ser um ônibus assustador. Foi quando me deparei com o novo interior que aquele veículo havia se transformado: era o lado de baixo do cemitério. Todos os mortos estavam deitados uns ao lado dos outros e alguns debatiam sobre esporte e política enquanto tomavam café. Sim, isso era muito engraçado. Porém o odor, a sequência de criaturas comendo pedaços umas das outras me deixaram logo com nojo de tudo aquilo. Era muita confusão. E o pior, eu não sabia como voltar para casa.

- Eu gostaria de ir para a minha rua. - pedi ao motorista.

- Você sabe em qual avenida fica? - ele respondeu.

- Como assim? - indaguei.

- Bem, em cada lugar que você escolhe neste ônibus há rotas, e nestas rotas, avenidas. Só é possível voltar para a sua rua se você souber o nome da avenida. - explicou.

- Eu não sei o nome da avenida!

- Então você deverá escolher outra para viver. - disse o motorista.

Foi isso que aconteceu. Ninguém me deu uma escolha. Eu não sabia como voltar para casa e então decidi ficar no único lugar em que a minha vida não seria um completo desperdício: dentro de um mundo em que histórias como essas poderiam ser contadas.

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