terça-feira, 13 de maio de 2014

O Garoto da Janela de Cima


O Garoto da Janela de Cima conseguia enxergar três bancos na rua da frente. Um banco era normal, ele dizia. O outro, completamente desinteressante. Mas havia um que ele não conseguia tirar os olhos. Era um banquinho azul que, ao anoitecer, recebia uma coloração quase que sobrenatural. O Garoto da Janela de Cima não sabia explicar que tipo de azul era aquele. A única coisa que ele falava para os seus pais era:

- Aquele banquinho é mal assombrado.

Os pais do Garoto da Janela de Cima não acreditavam nas palavras do filho. Muitas vezes o chamaram de maluco por causa dessas suposições.

- Não existe o banco do azul impossível de ser azul. - o seu pai respondia todas as noites.

Mesmo assim, O Garoto da Janela de Cima continuava insistindo.

- É um azul dos mais azuis. E é mal assombrado.

Certa vez, O Garoto da Janela de Cima resolveu sair do seu quarto e ir até o outro lado da rua no qual ficavam os três bancos: o normal, o completamente desinteressante e o azul impossível de ser azul. O jovem pulou no primeiro e o achou sem graça - o marrom de suas madeiras velhas não chamava atenção. Caminhou um pouco e foi até o próximo, mas nem se deu ao trabalho de testá-lo. Por fim, chegou no último. Analisou com cuidado, tocou a madeira que tinha uma textura macia e exalava um calor sem igual. Sentou-se e ficou observando. Olhou em direção à sua janela e nada viu: nem seus pais que costumavam dizer boa noite, nem a luz ligada que esquecera antes de sair.

- Eu esqueci a luz ligada! - falou em tom de surpresa. - Agora não está mais! - concluiu.

Pensou, pensou e pensou mais um pouco. O Garoto da Janela de Cima voltou seus olhos novamente para a sua casa. Com cuidado, foi analisando cada tijolo da residência até chegar na entrada do seu quarto. O que viu naquele momento o surpreendera.

- Sou eu! - exclamou. - O Garoto da Janela de Cima sou eu!

Saiu do banco e verificou novamente. Não havia mais nada lá. Ele era apenas um menino de pijamas fora de casa no meio da noite. Sentou-se mais uma vez.

Quando fez isso percebeu que havia um número grande de pessoas ao seu redor - todas vestindo pijamas brancos com listras azuis impossíveis de serem azuis. Ficou com medo, mas logo decidiu que era hora de ser homem.

- Quem são vocês? - perguntou. Era a única coisa que vinha na sua mente.

- Nós somos os que guardam o seu banco. - responderam em uníssono. 

- Mas não é o meu banco. É o banco da cidade. - o garoto replicou.

- A cidade não tem este banco. Este banco é só seu. - tentaram esclarecer, novamente em uma só voz.

- Por que seria meu?

- Só você consegue vê-lo.

- Vocês são fantasmas?

- Somos quem você quiser que sejamos. Mas agora você é um de nós. - aos poucos as vozes foram se dissipando e apenas uma continuou falando. A sua.

- Eu não entendo.

O Garoto da Janela de Cima pegou na mão do Garoto da Janela de Cima e o levou até o meio da rua. Mostrou-lhe os bancos normais e explicou porque eram normais. Mostrou-lhe os bancos desinteressantes e explicou porque eram desinteressantes. Mostrou-lhe o único banco azul impossível de ser azul e explicou que era hora de ir para casa.

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