segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O embarque para nenhum lugar


Havia uma janela na minha frente. Era gigante - ia do teto até o chão. Ao meu redor a escuridão não permitia que eu pudesse enxergar onde eu estava. Apenas conseguia sentir o chão gelado de pedras úmidas, e à frente o vento cortante que entrava por aquele buraco que parecia infinito.

Levantei, e senti que as minhas pernas quase não sabiam mais como andar. Não lembrava de ter passado tanto tempo ali, mas todo o meu físico provava que esta teoria estava errada. Aos poucos consegui caminhar e me aproximar daquela janela, que enviava pequenos sinais de iluminação no seu exterior. Me apoiei no lado direito e fiquei piscando sem parar até conseguir me acostumar com algo que não fosse o breu daquela noite.

As luzes vinham de uma cidade que ficava a mais de cem metros de onde eu olhava. Era necessário um esforço muito grande para conseguir notar os prédios entre as nuvens negras que me separavam do único lugar que, talvez, tivesse vida.

Passei horas olhando, tentando entender como eu havia chegado ali, mas nada vinha na minha memória. Era como se eu tivesse nascido na tristeza, na escuridão. Notei que não sabia quem eram os meus pais, minha família e até mesmo o meu nome. Então, aos poucos, a voz de uma garotinha começou a ecoar pelo salão e todos estes pensamentos sumiram da minha mente.

"Seu coração sempre fora negro;
assim como o seu mundo;
que hoje é um poço fundo;
pronto para transbordar".

Os versos ficavam repetindo por muito tempo, e paravam quando os meus ouvidos estavam acostumados com eles. Eu não sabia se realmente haviam terminado ou se eu apenas não dava mais importância para a canção.

Dormi. Não posso dizer por quantos dias. E quando acordei algo diferente aconteceu: enquanto a música tocava, a garotinha vestida de preto se aproximou de mim. Por fora, parecia uma criança, mas seus olhos me contavam histórias de centenas de anos.

- Venha. - estendeu a mão. Sua voz continuava cantando, mesmo ao falar.

- Para onde? - falei, acompanhando-a.

- Está na hora do embarque. - respondeu.

- Finalmente.

- Parabéns. - sorriu. - Você mereceu!

Andamos pouco mais de cinquenta metros e eu percebi quão pequeno era o salão onde eu estava. Saímos por uma porta quase do mesmo tamanho que a janela gigante, e lá fora estava um trem soltando o seu vapor e emitindo um ruído das rodas nos trilhos. Pude ver pelo vidro pessoas caminhando e sorrindo, fazendo as suas refeições e cantando músicas desconhecidas.

- Você pode embarcar agora. Tenha uma ótima viagem! - a garotinha, que agora parecia uma mulher alta e bela, apontou para a porta do trem.

Eu entrei segurando uma mala em mãos. Não sabia que tinha roupas ou objetos de minha posse. Subi as escadas e entrei em um salão que não parecia caber em um vagão.

Homens dançavam com suas companheiras no centro, e ao redor todos os outros aplaudiam em suas mesas, festejando.

- Com licença. - chamei alguém que elegantemente usava uma cartola. - Para onde estamos indo?

- Nenhum lugar. - respondeu, virando-se para aproveitar o espetáculo.

- Nenhum lugar? - indaguei novamente. - Eu acabei de sair de nenhum lugar.

- Fique feliz. São poucos que saem do Nenhum Lugar Escuro para o Nenhum Lugar Claro. - falou.

- E o que eu devo fazer aqui?

- Procure o seu quarto. O seu nome deve estar em algum deles. - o homem saiu caminhando após dar a sua resposta final.

Saí do salão e fui procurar os quartos. Não foi difícil encontrar o meu. Era como se ele me seguisse para onde eu fosse. Abri a porta e todas as minhas memórias voltaram. Vi meu pai, minha mãe, meus filhos, meus irmãos, todos conversando na mesa durante o almoço.

- Você não vem? - meu pai perguntou.

- Ahn... Sim. Só um minuto! - falei.

Fechei a porta e abri novamente. Agora eles estavam assistindo televisão, e parecia noite.

- Quando você vai sair daí, filho? - minha mãe me chamava.

Eu entrei na sala de casa e olhei para dentro do cômodo que recém havia saído. Conseguia enxergar todas as pessoas do trem circulando os corredores, mas mesmo assim estava na minha casa.

Passei uma noite com toda a família, e na outra manhã maquinista anunciou que era hora de acordar. Vesti a minha roupa social e fui até o baile no salão principal aproveitar a minha viagem para Nenhum Lugar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário