terça-feira, 16 de julho de 2013

Nos dois lados, uma aventura



O vendo gelado rasgava o rosto do garoto que corria desesperadamente para chegar em casa. Ele subia e descia as pequenas oscilações do chão da fazenda, coberto de minúsculos flocos que a geada criara durante a madrugada. Lá não nevava. Mas a temperatura era suficiente para deixar qualquer pessoa desejando uma xícara de café e um cobertor.

- Só mais alguns minutos. Só mais alguns minutos.

Ele já enxergava sua casa a cem metros de distância, e podia ver a fumaça desfilando para fora da chaminé.

- Eu preciso resistir.

Seus lábios estavam rachados e totalmente secos. Seu nariz, que agora escorria, dificultava na respiração. Ele continuou correndo, sentindo seus pés enterrados no chão molhado.

- Droga! - reclamou. Agora não conseguia mais sair do lugar. Metade da sua perna estava coberta pelo marrom congelante do solo úmido. Tentou, inutilmente, lutar contra o terror que vivia naquele momento.

- ALGUÉM?

Ninguém ouviu, obviamente. Seus pais já estavam há muito tempo cuidando dos animais no outro lado da fazenda e não chegariam tão cedo em casa. E vizinhos apenas a mais de um quilômetro de distância. Ele precisaria resolver o problema sozinho.

Cada vez que se forçava a subir sentia o chão afundando sob seus pés. A terra encostava em seu peito e logo estaria engolindo a sua cabeça, sufocando-o eternamente. Quando a sua boca ficou coberta, o garoto decidiu desistir e aceitar o seu destino, mas algo o puxou rapidamente para o solo, em uma velocidade que nem o trator do seu pai poderia alcançar. Olhou para cima e viu um perfeito túnel com a iluminação do dia já muito distante. Virou seus olhos para baixo e enxergou apenas escuridão.

- Ótimo. - cruzou os braços e ficou aguardando a queda, como no tobogã improvisado na lagoa ao lado do potreiro.

Após cinco minutos descendo ele sentiu o chão novamente. Ali tudo era quente, nem parecia inverno. Tirou o seu casaco e a touca, aliviou suas mãos das luvas de lã, e caminhou um pouco para tentar reconhecer o local. Era escuro, mas pequenas luzinhas nas paredes criavam um caminho para que ele pudesse se encontrar.

- Olá? Uma ajuda seria bem-vinda. - ouviu o eco da sua voz passear pela caverna.

Andou um pouco para frente, sempre acompanhando a trilha, e viu um laguinho extremamente azul e perfeitamente circular exibindo a sua beleza. No outro lado, bem no fundo, havia uma casinha amarela com uma porta vermelha que jogava fumaça e luz para seu exterior.

Chegou perto da água e colocou o dedo para tentar alcançar a profundidade. Viu que não seria possível atravessar aquilo caminhando.

- EI! Você da casinha! Consegue me ouvir?

Levou um tempo para a criaturinha abrir a porta. Abanou para o garoto, dando pulinhos de alegria.

- PODE VIR!

- TEM UM LAGO AQUI!

- PODE PISAR NELE!

O menino não acreditou muito, mas resolveu arriscar. Não tinha nada a perder mesmo. Ao colocar o pé direito sobre o líquido azul, percebeu que podia andar como se estivesse pisando no chão. Olhou para baixo e viu centenas de peixinhos brilhantes nadando e subindo até a superfície. O garoto sorriu.

Quando chegou no outro lado viu o homem, que se revelou um senhor baixinho com orelhas caídas e um nariz que encostava no queixo. Vestia uma camisa xadrez e um suspensório vermelho.

- Ahn... quem é você?

- Eu pergunto o mesmo, amiguinho.

- Cheguei aqui sem querer. Eu caí e fui puxado para cá.

- Ah, maldita segurança que sempre falha - o homenzinho sugou um pouco da fumaça do seu charuto, fazendo uma cara de insatisfação. - Vamos entrar?

- Tudo bem.

O garoto achou que não caberia lá dentro, mas a casa se mostrou muito convidativa para qualquer pessoa. Ao passar pela porta, viu que o interior do lugar era mil vezes maior que o exterior. E como era quentinha e aconchegante.

- E agora, como vamos resolver o seu problema?

- Eu ia perguntar a mesma coisa.

A velhinho ofereceu um café e pedaços de bolo para o menino, que comeu como se nunca tivesse feito uma refeição na vida. Viu a criaturinha andando de um lado para o outro com a mão no queixo, pensativo.

- Nós precisamos jogar você de volta. Isso nunca aconteceu aqui. É praticamente impossível alguém de cima chegar nesse ponto do mundo.

- E você sabe como?

- Bem, eu tenho livros que falam sobre o assunto, mas não garanto que vá funcionar, amiguinho.

- Melhor do que nada.

O homenzinho foi até a sua estante e puxou um livro chamado "Os truques e regras de cima e de baixo". Abriu no capítulo 45 e leu o título.

- "Passos para mandar alguém de volta para o seu lado do mundo".

O seu rosto enrugado foi mudando de forma enquanto lia cuidadosamente as instruções.

- Então?

- Nós vamos precisar da ajuda do Dragão Azul.

- E isso é perigoso, certo?

Não recebeu uma resposta.

Eles foram. Atravessaram o laguinho e caminharam até o outro lado da caverna, passando pelo túnel por onde o garoto havia caído, parando em frente a uma porta gigante com um anúncio escrito na madeira "NÃO PERTURBE. SÓ SE FOR HORA DO LANCHE".

Toc. Toc. Toc.

O rosnado ensurdecedor fez os ouvidos do garoto doerem. Imaginou o quão grande deveria ser aquele animal. A porta foi abrindo aos poucos, revelando uma luz amarela misturada com um reflexo azul cintilante.

- Oi. - disse uma voz estridente.

O garoto viu, então, que o dragão era apenas um metro maior que ele. Isso fez todas as suas crenças caírem por terra.

- Oh, amado, precisamos levar este menino de volta para o seu mundo.

- Beleza! Eu estava mesmo com um tédio de matar aqui. Sorte de vocês que eu já comi. - riu, como se tivesse contado a melhor piada do mundo.

Convidou o menino para subir em suas costas e os dois se despediram do velhinho. Foram voando até a fazenda. Passaram por cima das casas e viram como tudo era tão pequeno.

- Ei, obrigado por me ajudar.

- Sem problemas, carinha. Venha nos visitar mais vezes.

- Pode apostar!

O garoto foi para casa, sentou na poltrona com uma xícara de café em mãos e se cobriu, pensando em como a sua vida seria muito mais divertida a partir daquele dia.

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