terça-feira, 11 de junho de 2013

No outro lado da cama


O garoto já não tinha mais medo, porque naquela noite seu pai derrotara todos os monstros que o perseguiam. E ele fazia isso sempre. Cada vez que seu filho ficava com medo seu guardião estava lá para secar todas as lágrimas e colocar um sorriso naquele que era o seu bem mais precioso. As luzes eram apagadas e a angústia ia embora, trazendo alegria ao nascer do sol. E era assim que o menino sabia que estava a salvo mais uma vez.

Esse era o último capítulo da história que o Pai estava lendo há semanas para o seu amado filho todas as noites antes de dormir. Quando era hora de escolher um novo livro, o garoto exigia que fosse sobre algum monstro sendo derrotado, pois ele sentia um terror incalculável por criaturas vivendo em seu armário ou debaixo da cama. Apesar de sempre se acalmar com a resolução dos contos e acreditar que tudo estava bem, o pequeno Johnny voltava a se aterrorizar quando a noite chegava.

"Pai, eu sei que tem um monstro ali na cama... o senhor pode olhar de novo?" - pedia incansavelmente, dia após dia.

E com paciência e amor pelo seu filho o Pai verificava e assegurava de que tudo estava em ordem e que os bichos feios haviam sido destruídos mais uma vez.

"Viu? Só tem cadernos, meias sujas e a sua bola de futebol aqui embaixo. Agora você pode dormir tranquilamente. Boa noite, garotão" - disse sorrindo, enquanto passava as mãos nos cabelos do menino, bagunçando-os. E deu-lhe um beijo na testa.

O Pai desligou as luzes e o quarto foi tomado pela escuridão, exceto pela luz que a Lua jogava pela fresta da pequena janela no topo da parede. Johnny fechou os olhos e ficou tentando pensar em coisas que o afastasse dos pesadelos, mas era muito difícil para ele fazer isso quando seus cadernos e brinquedos começavam a sair debaixo da cama, como se alguém tivesse atirando-os até o outro lado do quarto. A respiração do garoto estava acelerada e o suor escorria pelo seu rosto, molhando todo o travesseiro. Ele pegou a lanterna que mantinha ao seu lado e criou um feixe de luz ao seu redor; respirou e falou repetidamente: "Monstros não são reais, são histórias. Monstros não são reais, são histórias. Meu pai disse que eles não são reais, são histórias".

"Ei, tem como você ficar quieto aí em cima?" - uma voz de criança surgiu.

O desespero agora estava completo. Johnny tentou chamar o seu pai, mas não conseguia dizer uma palavra, pois o choque o deixara paralizado.

"Nada de resposta hoje? Eu fico ouvindo você reclamando de monstros todas as noites. Também achei que você fosse um quando descobri tudo isso, mas dá um tempo! Essa maldita coisa de bicho com tentáculos gigantes é apenas mais um recurso dos adultos para fazer com que nós, crianças inocentes, não caiamos nas armadilhas do mundo real. Eu sei que nós temos apenas sete anos, mas já está na hora de crescer, não acha? Pelo menos você precisa" - a voz continuava aparecendo do lado de baixo da cama de Johnny.

"Que... que... quem é você?" - o pobre menino não aguentava mais ficar com medo.

"Vamos fazer o seguinte? Eu vou sair, mas não quero que você comece a gritar" - e o outro garoto começou a rastejar pelo chão, revelando-se um não-monstro muito familiar. - "Sim, eu sou você e você é eu. Não tente me perguntar o que está acontecendo, só venha comigo".

Johnny viu o outro Johnny sorrindo e estendendo a mão para que ele o seguisse. Então os dois foram para debaixo da cama, entrando em um mundo que era completamente novo para um menino assustado.

"O que é exatamente isso?" - perguntou, observando um quarto extremamente brilhante e cheio de brinquedos legais.

"É o outro lado. Sabe, no nosso Universo não existe apenas um lugar, existem diversas versões de nós mesmos por todos os lados, mas apenas alguns conseguem achar a entrada. Bem, a maioria das crianças percebe que elas existem, porém tudo é dado como monstros do armário e bichos debaixo da cama. Quando crescemos, enfim esquecemos e não damos mais importância para tudo isso. Só que em alguns casos, ou seja, no meu Mundo, nós aprendemos o que somos e como somos divididos pelo Universo. Eu descobri isso quando estava assustado com um "monstro", que na verdade era você. Então peguei a minha lanterna e fui procurar por respostas, até que encontrei o seu quarto. Depois disso fui perguntar para o meu pai e ele me explicou direitinho, mas ele falou que nós não deveríamos dizer nada para o Mundo de vocês, pois a sua sociedade não aceita muito bem ou qualquer coisa do tipo. Só que eu quero ter um amigo, alguém como eu e que me entenda" - após a longa explicação, os garotos ficaram brincando por horas com os aviões elétricos e com a mini-cama elástica que Johnny Dois tinha em seu quarto.

"Vamos fazer isso para sempre? Nós podemos continuar nos encontrando toda hora que quisermos?" - perguntou Johnny Um, na esperança de finalmente ter feito um amigo, um irmão.

"Sim! É claro. Esse será o nosso pequeno segredo".

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