sábado, 8 de junho de 2013

Eu não sou um Super Herói: o dia seguinte


Existem coisas na vida que nós não podemos escolher: quando nascemos, a cor do nossos olhos, quem é a nossa família, quais serão os colegas chatos que  nos atrapalharão a cada minuto na escola ou no trabalho. E, apesar de podermos mudar um ou outro elemento, no final das contas continuamos sendo nós mesmos. É impossível apagar a existência, pois não importa quanto tempo ficamos no mundo, ainda seremos parte da história. Bem, 99% da humanidade pode falar isso, menos eu e os que foram destinados.

Ser um super herói não é algo que acontece por causa de uma picada de aranha ou porque você tem muito dinheiro. É fácil contar histórias em revistas coloridas e torcer para que todo o universo bata palmas no final. Não, esse é um negócio muito mais complexo do que você ou qualquer um de nós possa imaginar, e eu sei bem, porque passei trinta anos da minha vida tendo que trabalhar com isso, sendo escravo de dons que eu nunca pedi e jamais pensei em ter. Mas isso é passado agora, porque ontem eu fui demitido.

A primeira mudança que você nota é, obviamente, a falta dos poderes. Eu tinha uma fantástica memória e uma velocidade extraordiária, além de todos os outros elementos que se aprendem ou que vêm no  pacote quando escolhido e levado até a escola de treinamento. Essa deficiência pós-demissão eu notei hoje pela manhã quando fui tentar correr para me exercitar e senti como se todo o mundo estivesse em câmera lenta, mais ou menos aquela sensação de estar com muito sono durante a aula e ainda faltar três horas até você poder voltar para casa. Eu acho que ainda vou levar muito tempo para conseguir me acostumar com isso.

Mas esse não é nem o princípio dos problemas. Almoçando com a minha mãe, estávamos com a televisão ligada no noticiário e diversas ocorrências de mortes pipocavam uma após a outra na tela. E é claro que foi feita a pergunta que eu não queria ouvir:

"Filho, você não vai ajudar essas pobres pessoas? Seu super relógio ou sei-lá-o-que de pontualidade quebrou?"

"Na verdade, mãe, é um pouco pior que isso. Eu não tenho mais permissão para consertar os problemas da sociedade" - falei, esperando que isso resolvesse o caso. E é claro que não foi o que aconteceu.

"Mas como assim? Você não pode desistir dessa maneira, de um dia para o outro. Você também nem pode fazer isso, porque tem tudo no contrato. O Super Herói destinado não pode parar de exercer o cargo" - ela falou, tentando entender.

Não adiantava mais esconder o que havia acontecido. Eu precisava contar à ela o que me fez ser mandado embora da agência.

"Mãe, a situação é muito mais complicada que essa. Eu fui demitido" - ela já estava abrindo a boca para falar de novo e eu a interrompi.  - "Mas deixe eu explicar primeiro. Na Agência existe uma regra que ninguém pode nem pensar em desrespeitar, mas ninguém nunca tentou saber qual era. Todos sabiam que no Livro dos Destinados tem uma cláusula que fala a respeito, mas entre os estudantes era um mistério total. E eu quis descobrir. Fui até a biblioteca, roubei aquele livro e achei a maldita regra, que era a seguinte: 'Nunca utilize a chave'. Neste momento estava claro que eles escondiam algo de nós. Em todo o nosso tempo de estudo foi ensinado que nós éramos os seres superiores, que jamais haveria alguém igual, mas aparentemente existia uma entidade que controlava tudo isso. Bem, eu passei horas tentando entender qual era o significado dessa chave e foi quando lembrei da sala do diretor. Enquanto ele estava dando aula, fui correndo até lá e notei uma porta gigante dourada atrás da mesa. Flutuando em uma chuva de ouro tinha a seguinte frase: Chave dos Poderes. Ali estavam guardadas todas as habilidades de todos os Super Heróis existentes, ou era isso que estavam querendo fazer com que os alunos pensassem. Quando atravessei pela entrada dei de cara com o diretor sentado em sua cadeira, em uma sala exatamente igual, provavelmente de uma realidade alternativa. Ele olhou para mim e disse que eu tinha esquecido de colocar o livro de volta na estante".

"E por isso eles mandaram você embora?" - perguntou a minha mãe, confusa.

"Na verdade, não. Foi porque..."

Epílogo:
E ele dormiu. Os médicos e enfermeiras o levaram de volta para a sua cama após mais um dia difícil no hospital para recuperação mental.

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