sexta-feira, 19 de abril de 2013

Uma manhã com o Doutor


Ele não precisava dormir. Não mesmo. Mas a convivência com os humanos na Terra, enquanto estava exilado, o fez manter costumes deste povo tão querido em seus corações. E naquela manhã ele dormia. Era como se todas as suas preocupações, medos, angústias e culpas tivessem sido arrancados naqueles pequenos momentos em que descansava na sua cama, na TARDIS.

Ele sonhava que brincava com as estrelas e corria entre elas como um garoto, que já não era mais. Era até inacreditável pensar que um Senhor do Tempo que sofreu tanto poderia ainda aproveitar minutos da sua infância e de todas as maravilhas que havia visto. Lá no fundo ele acreditava que o Universo mudaria, que todos os seus monstros sumiriam no momento em que acordasse.

Com um sorriso no rosto o Doutor acordou. Ficou surpreso em ter dormido tanto e imaginou quantos dias haviam passado. Mas no final das contas não deu bola porque, bem, ele tem uma máquina do tempo. Olhou para os lados e viu um copo de água no bidê em forma de lua. Pegou, passou o líquido de um lado para o outro em sua boca, fez um gargarejo e engoliu, sentindo-se incrivelmente vivo. Pulou da cama, arrumou os seus cobertores com estampas de estrelinhas e foi correndo até o espelho ver a situação do seu rosto.

"Meu paizinho" - disse, assustado. Seu cabelo estava uma bagunça.

Verificou o pijama, também todo completo com desenhos de estrelinhas, e foi até o seu guarda-roupas escolher uma das mil incríveis combinações de tecidos que poderia encontrar. É claro que escolheu o clássico: sobretudo com pequenas lembranças de uma cor roxa, gravata-borboleta, calças pretas e suas botinas. Também arrumou o cabelo, pois o Doutor não pode sair por aí sem parecer legal.

"Faz tanto tempo que não faço esse café da manhã. Acho que vou preparar peixe frito com creme de leite".

Deslizou pelo tobogã do seu quarto até a cozinha, que ficava lá embaixo.

"Ei, Sexy, prepare aí os ingredientes que eu vou arrumando a mesa para começar a cozinhar" - ele corria de um lado para o outro gargalhando de felicidade.

A TARDIS ligou o seu sistema, acionou todos os seus botões e, através de um buraco na parede, lançou tudo o que o Doutor precisava para a sua incrível refeição matinal. Junto aos pratos havia um bilhete.

"Senti saudade dessa sua alegria. Você deveria vir mais aqui na cozinha. - de sua sempre querida Sexy"

Ao olhar o recado, o Doutor encheu seus olhos com lágrimas. Foi até a mesa, que era muito parecida com a sala de comandos, mas sem todos os botões e, em vez de um monitor, tinha o microondas esperando para ser utilizado. Com o seu avental, o Senhor do Tempo batia os ingredientes do creme de leite, enquanto esperava os pedacinhos de peixe esquentando.

"É, eu senti muita falta disso mesmo. Talvez o Universo seja realmente pequeno comparado às mínimas ações do dia a dia"

Agora tudo estava pronto. Ele tirou o seu avental, totalmente sujo, e sentou-se no banquinho que ficava perto da mesa. Pegou um peixe, mergulhou-o no creme de leite e mordeu.

"Essa é para você, pequena Amelia". 

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