domingo, 14 de abril de 2013

Os sussurros da floresta


É clichê dizer isso, mas eu queria que você estivesse aqui. Se apenas eu tivesse a oportunidade de refazer tudo o que aconteceu, eu não perderia tempo. Mas a vida é assim. E desafiar a Árvore, como nós fizemos tantas vezes, foi uma besteira muito grande. Por isso eu peço desculpas, meu amigo. Fique em paz e espero reencontrar você algum dia.

Já faz mais de um ano que eu perdi o meu amigo na Floresta, para a Árvore, e desde lá nunca mais ouvi falar dele. Eu desisti, essa é a verdade. Até gostaria de ir procurar, tentar consertar tudo, mas não há nada que me faça levantar da minha cama. Além disso, minha cidade está completamente destruída pelos Impostores. Eles percorrem cada centímetro das ruas e fingem ser quem não são. Transformam-se nos corpos das pessoas que as almas já foram recolhidas para que a Árvore continue a sua missão.

Desde que eu nasci existe esta entidade e ela é tratada como uma deusa, um ser que trará alegria e devolverá todos os que perdemos quando o nosso Mundo terminar. Nós vivemos em Órbita da segunda lua de Netuno, por isso todos os nossos dias são escuros e as nossas noites também. Somos, o que você pode chamar de "um povo triste", pois as nossas perdas nunca acontecem por algum motivo. Todas as pessoas que nós amamos são devoradas, tiradas de nós. E foi assim que tudo aconteceu:

Meu amigo e eu acordamos muito cedo naquele 4º Dia da Árvore Sagrada e fomos cumprir a nossa tarefa: descobrir o que havia dentro dela. Segundo uns livros antigos da biblioteca do meu pai, ninguém nunca havia entrado ou chegado perto da deusa, nem ao menos ousado a entrar na floresta negra, onde ficam os Impostores. Apenas quem foi sugado que conheceu o interior e, bem, nós não esperávamos que elas estivessem vivas para contar a história. Nós queríamos acabar com esse mito, porque tudo era extremamente idiota para o nosso gosto.

A nossa semana foi de estudos minuciosos sobre os aspectos e mitos que aquele lugar poderia ter. Nós sabíamos que: a) os Impostores eram, sim, de verdade. b) que nós precisaríamos passar por eles antes de qualquer coisa. Para isso, é preciso lembrar de mais um detalhe: eles estão sempre vestidos de ternos negros, com capas que vão até os seus pés. Seus rostos são cobertos com outra capa negra, que impede descobrirmos a suas verdadeiras formas, até se transformarem em alguém conhecido. Nós tínhamos certeza que qualquer tentativa de disfarce seria idiota, mas mesmo assim tentamos. Olhando no espelho, até que não ficou tão ruim.

Quando chegou o dia oficial para entrarmos de verdade na floresta e conhecer a Árvore, nos preparamos e fomos sem pensar duas vezes. Caminhamos, atravessamos a Ponte do Rio Azul e fomos engolidos pela escuridão. Não havia mais nada nas nossas costas, apenas a neblina e pequenos pontinhos de luz que apareciam e sumiam eventualmente. O silêncio era tanto, que era possível ouvi-lo.

O caminho foi bem mais fácil que nós imaginávamos. Chegamos e paramos bem em frente da Árvore, que devia ter uns cem metros de altura. De perto, ela parecia bem simpática, com uma portinha e um tapete escrito "Bem-vindo"... e foi aí que tudo saiu do controle. Os Impostores começaram a aparecer e brincaram com as nossas mentes. Tudo estava planejado. Eles se transformaram no meu cachorrinho, na avó do meu amigo, até mesmo nos brinquedos que havíamos perdido. E nos fizeram entrar na Árvore. Era impossível resistir, então fomos caminhando, olhando os quartos gigantescos, o salão de festas completo de comida, todos os nossos antigos amigos que já haviam partido.

"Veeeeeenhaaaaam... eeuuu leeevareei vocêêêsssss atééé ssssseusss aposeeentoss" - dizia o Impostor. Mas ele não me dava medo. Sua maneira de falar me acalmava.

Eu fui para o meu quarto e o meu melhor amigo foi até o dele. Desde então nunca mais nos encontramos.

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