domingo, 14 de abril de 2013

Eu moro em um robô


Era tarde demais para levantar e a minha mãe já estava soltando parafusos de tão irritada comigo. Ela  gritava:

"Desce para comer o Óleo da Manhã, filho".

E eu, claro, rolava de um lado para o outro na minha cama. A pior coisa de viver nesse lugar cheio de latas, é que eu não costumo fazer nada de muito interessante. Geralmente vou até o centro da cidade correndo para que as minhas pernas não enferrujem, mas ultimamente nem isso eu estou querendo. Bem, tive que descer para agradar a minha mãe agora.

Dois goles de óleo, uma apertada em todas as minhas engrenagens e a refeição da manhã estava concluída. Você deve estar pensando aí "ah, agora ele vai para a aula". Negativo! Eu não preciso estudar. Ninguém aqui precisa. Porque nós já fomos programados com total inteligência, então basta nós não sermos idiotas o suficiente para estragar algum circuito ou arrebentar os fios. Outro dia o meu irmão foi tentar descer o corrimão apenas com as rodinhas dele e tomou um tombo que fez a cabeça parar lá no outro lado da sala. Minha mãe deixou ele de castigo e disse que só receberia as rodas de volta quando soubesse funcionar como um robô de verdade.

E se eu não vou para a escola, não trabalho, não faço nada, tenho um tempo infinito para descobrir novas coisas na minha casa. Sabe, nós somos robôs, mas o mais incrível é que ela também é. Ela tem vida própria e tudo, além de diversas salas secretas que foram construídas em caso de alguma guerra ou qualquer coisa do tipo. Como ninguém teve a coragem de nos atacar ainda, essas salas ficaram abandonadas. Sinto como o meu objetivo descobrir todas elas. Até agora eu encontrei apenas cinco, mas dizem que tem mais de vinte, cada uma diferente da outra, com funcionalidades diferentes.

Minha mãe não sabe que eu faço isso, o que torna o espírito de aventura mil vezes mais divertido. Antes de ir, pego o meu kit de sobrevivência: uma latinha de óleo e um saquinho de parafusos, caso algo dê errado. E também troco a lâmpada da minha lanterninha da cabeça, porque nunca se sabe quando uma luz será necessária. Mas vamos lá ao que interessa!

Desta vez eu quero saber onde fica o salão de jogos. Segundo "O Livro Incrível das Salas Escondidas",  tem um lugar especial onde as crianças, jovens e adultos podem ir se entreter enquanto a coisa lá fora está complicada. Sabe, a casa faz todo o serviço de guerrilha, então o nosso dever é ficar aqui dentro aguardando. Pelo que dá para ver nas fotos do livro - desatualizadas - esse salão tem montanhas russas, parques oleáticos e uma piscina de parafusos. No final de cada capítulo tem um mapa que, se seguido bem direitinho, leva o sujeito até o local determinado. Essa sala, em específico, ficava em uma rachadura na parede debaixo da cama do quarto de hóspedes. Eu tive que usar o poder da minha lanterna para enxergar. Li a última linha na página do livro e vi que era necessário digitar um código na minha central de comandos. 422442. Abriu.

Sem luz. Sem barulho. Sem nada. A porta abriu, mas nada incrível aconteceu. Será que os meus pais chegaram aqui antes e desativaram? Se sim, eu vou ficar muito irritado. Bom, entrei mais um pouco e percebi que tinha uma chave para, teoricamente, iluminar o salão. Nada aconteceu. Na verdade, depois de cinco minutos eu notei que um barulho vinha lá do outro lado e eu não fazia ideia da distância que eu estava até que dois pontos de luz piscaram bem na minha frente e um som ensurdecedor de um trem deixou os meus circuitos degringolados. Depois disso também escutei uma espécie de robô gigante pulando de um lado para o outro e destruindo as prováveis montanhas russas.

Saí correndo, mas a porta estava trancada. Lembrei que a minha lanterna ainda estava funcionando e fui  tentando descobrir exatamente onde eu estava. Vi uma placa na minha frente que dizia: 

PARQUE DE DIVERSÕES - ATUALIZAÇÃO: SANATÓRIO DOS ROBÔS.

E em letras minúsculas estava escrito: "compre a nova versão d'O Livro Incrível das Salas Escondidas".

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