sábado, 2 de fevereiro de 2013

Conto: "A Rainha da Inglaterra viaja no tempo"

Eduardo acordou naquele dia sem disposição alguma. Sua vontade de levantar da cama e ir trabalhar na segunda-feira era deprimente. Mas foi, com os pés se arrastando, até o banheiro para tirar do corpo toda a preguiça com uma ducha de água gelada. Não adiantou muito, pois continuava caminhando feito um zumbi asmático. O garoto andou até o seu quarto com a toalha enrolada na cintura e exibindo os seus braços, que pareciam apenas dois ossos revestidos de pele. Fechou a porta.

Abriu a primeira gaveta do armário e escolheu a sua camiseta preferida da série Game of Thrones, vestindo-a com um sorriso no rosto. Também botou as calças, porque não podemos esquecer deste detalhe. Além disso, resolveu tentar um novo estilo: pegou do fundo, quase alcançando Nárnia, um paletó preto novíssimo. Olhou-se no espelho e concluiu que estava fantástico.

O menino labutador foi até a porta e tentou abrir, porém nada acontecia. Ele nunca teve uma chave, então era impossível algo assim ocorrer. Percebeu que todo o seu dormitório estava tremendo e fazendo um som totalmente desconhecido. Abriu a janela e viu apenas uma escuridão em movimento, se é que isso era possível.

Sentiu um ar muito frio entrando no cômodo e resolveu trancar a janela. Ao virar até a sua mesa, onde deixava o computador, surpreendeu-se ao ver que na tela estava sendo exibido algo totalmente diferente do seu sistema operacional: números e datas eram mostrados em primeiro plano, e ao fundo, fotografias de outras épocas saltavam aleatoriamente e com uma velocidade impressionante. Mas isso era o menor dos problemas. Eduardo notou que toda a sua mesa de trabalho e sua estante, onde deixava livros de Arthur C. Clarke, tinham diversos botões e alavancas brilhando e criando infinitos sons de tecnologia do futuro. DO FUTURO.

Como Eduardo não era bobo nem nada, foi tentando descobrir o que todos aqueles comandos de naves espaciais significavam. Mas logo percebeu que neles tinha algo escrito em cima, por exemplo: no botão azul, a frase "aperte aqui e digite no seu teclado uma data. Você poderá ir para onde quiser. Ah, os outros botões são só para enfeite"; Em outra esfera no canto da mesa estava escrito apenas: "isso aqui não faz nada. Siga as instruções do botão azul". E assim ele fez. Olhou para a tela do computador e, calmamente, digitou: 11/09/2001. O quarto, agora nave, voou com uma velocidade incrível pelo espaço e foi até um dos prédios daquele fatídico dia em Nova Iorque. O problema é que ele estava dentro do prédio, faltando apenas alguns segundos para o primeiro avião se chocar. Conseguiu apertar o controle antes de morrer como um idiota.

Digitou novamente uma data: 23 de novembro de 1963. Viu um mundo totalmente diferente. As televisões ainda eram raras, os carros bem feios e as pessoas não eram em preto e branco, como imaginava. Caminhou um pouco pela rua cheia de neve de Londres, porque era ali que ele pretendia estar, foi encontrar a Rainha Elizabeth e a convenceu que ele possuía uma máquina do tempo. Como ele fez isso? Eu não quero nem saber.

Quando Vossa Majestade entrou pela porta do quarto e viu a janela aberta, não conseguiu acreditar. Apenas proferiu as palavras, que se tornariam eternas nos encontros de viajantes temporais: "essa coisa está andando". Com um sorriso no rosto, Eduardo já se sentia o rei do universo:

"Para onde você quer ir?" - perguntou.

"Essa sua máquina vai para outros planetas também? Porque eu conheço uma cabine policial que faz isso" - indagou da Rainha.

Era óbvia a resposta: "claro que sim, Senhora". E foram. Chegaram em um lugar fantástico, onde as luzes ficavam penduradas no ar e as nuvens brilhavam, iluminando toda uma cidadezinha composta por pequenos robôs bonitinhos. O quarto se camuflou na forma de uma casinha de metal circular, do mesmo jeito que as moradias dos habitantes. Os dois saíram da nave e foram recepcionados com uma festa: havia drinques de óleo, pastéis recheados com parafusos e cupcakes de latão. Apesar da aparência estranha, eram muito apetitosos. A Rainha lambeu os beiços.

Foram embora. Eduardo apenas mostrou mais uma coisa à Majestade: a abertura das Olimpíadas de 2012, onde ela boiou bastante e fez uma cara bem estranha enquanto todos a filmavam. Com lágrimas nos olhos, Elizabeth apenas quis ir embora, para nunca mais voltar. O coração do nosso viajante no tempo estava quebrado.

"É sempre a minha culpa. Acabo estragando toda a alegria dos meus amigos". E então percebeu que não tinha amigos. Que todos o abandonavam sempre. Ele desistiu da sua vida normal, abdicando do trabalho e faculdade, tornando-se o homem que olharia as maravilhas do universo sem interferir nas decisões do destino.

Mas ele sabia que o seu quarto era grande demais para uma pessoa só e que deveria passar a sua vida tentando encontrar alguém para viajar com ele.

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