sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A fome, o queijo e a geladeira

Era difícil dizer qual era o meu sentimento naquele momento. Um vazio imenso tornava meu estômago uma enorme caverna cheia de morcegos devoradores, deixando completamente sem qualquer forma de energia em meu corpo. Fazia horas que eu não colocava um pedaço de pão na boca, e aquilo me tornava uma pessoa muito, mas muito chata. 

Enquanto caminhava pela estrada para voltar para casa, avistei centenas de barraquinhas de cachorro quente e doces, paradas perto da calçada da praça do centro da cidade, porém não tinha nem um real para comprar sequer algumas balinhas. Eu odiava carregar dinheiro comigo e isso me matava aos poucos naquele momento.

Consegui sobreviver, pelo menos. Fui correndo para a cozinha imaginando aquele último pedaço de queijo que eu havia guardado na noite passada. Era a única comida que restava, pois eu esqueci de ir no mercado durante a semana. Agora tudo estava fechado e somente tinha aquele derivado de leite para abastecer todas as minhas energias. É claro que deu merda.

Quando abri a porta somente consegui avistar o vazio daquele lugar gelado onde guardava uma vez deliciosos pedaços de carne que sobravam do almoço. Agora era possível ver uma bola de feno girando de um lado para o outro, completando com um clichê perfeito o vazio do meu estômago. A desgraça estava estabelecida.

Fechei a geladeira e sentei no chão, escorado na porta dela. Peguei no sono e somente percebi que estava dormindo, porque acordei com o meu próprio ronco. Mas outra coisa me chamou a atenção quando abri os olhos: uma luz vinda de todas as frestas da geladeira estava enchendo a escura cozinha. Era como se o sol tivesse descido e vindo dar um "alô" para mim no lado de fora da janela. Logo tudo ficou escuro.

Curioso que sou, abri a porta daquele eletrodoméstico vazio e encontrei-o totalmente cheio, porém não era comida, mas uma cidade completa. Eu via carros, ônibus, uma infinita ponte que cruzava um rio imenso bem no centro daquele local. Também reconheci um avião pousando e algumas crianças abanando para mim lá na calçada, bem para baixo de onde eu estava. Aos meus olhos, minha posição era em uma sacada de um arranha-céu. Com toda a certeza não conseguiria descer para ver aquele incrível lugar.

Desesperado, voltei minha cabeça para o meu mundo e fechei os olhos. Ao abri-los, percebi que nada havia mudado e o vento da cidade sem fim balançava meus cabelos. Desta vez entrei totalmente, pois não estava mais com medo. A fome já havia sido horrível o suficiente naquele dia, o que poderia ser pior? Pensando que iria cair e explodir a cabeça na calçada, me surpreendi quando me vi no meio da rua. Então um carro tirou algumas células do meu braço ao passar buzinando e o motorista me xingando.

Saí correndo até a calçada e encontrei aquelas crianças que abanaram para mim. Olhei para elas e usei a melhor pergunta clichê que o mundo já conheceu:

"Onde estou?"

Elas riram e pegaram na minha mão. Levaram-me para um lugar muito distante e me deixaram na frente de uma loja que dizia:

"QUEIJARIA DO MUNDO REAL"

Minha cara de entender bulhufas continuou por muito tempo. Então entrei na loja. O cheiro de todos os tipos de queijo inundaram o meu nariz e fizeram o meu estômago bater palmas. Ao ouvir o sininho da minha entrada, um senhor com uma cara de rato veio até mim:

"Oooooooi, amigo. Procurando por um delicioso pedaço do céu?"

"Ahn, é. Sabe, lá em casa eu tinha um queijo na gelad..." - e o carinha com cara me interrompeu antes que eu continuasse.

"Bem, hihihihi... Quer tentar achar ele por aqui? hihihi" - disse o senhorzinho com uma cara de safado.

Fiquei olhando ao meu redor e percebi que cada queijo tinha uma etiqueta com nomes e cidades escritos neles. 

"Richard. Nova Iorque; Matthew. Londres; Espera aí, por que diabos tudo isso está nesse lugar?" - perguntei não acreditando, quando percebi que o meu pedaço de queijo estava brilhando em uma incrível peça de vidro.

"Hihihi... você acabou de chegaaaaaaaaar no Museu dos Queijos Abandonados. A plaquinha lá fora é só de fachada hihihihi" - disse o feioso cara de rato.

E eu saí correndo daquele lugar, apenas imaginando como é que eu voltaria para casa e passaria a minha vida sem nunca mais comer qualquer tipo de queijo.

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