quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Um encontro no Cemitério

Felício saltitava cada degrau de sua casa como uma gazela colorida no cio. Ele não se aguentava de tanta felicidade, porque finalmente conseguiu marcar um encontro com Genuína, sua vizinha. O pacato rapaz já estava beirando os trinta e cinco anos e ainda não tinha nem ao menos dado uma bitoquinha na sua amada. Ela não sabia que ele gostava tanto assim, mas ele sempre a olhou com diferentes perspectivas desde que estudavam juntos na pré-escola. Com certeza algo despertou a ânsia de Genuína, pois ela nunca se sentiu muito atraída pelo nosso amigo apaixonado, ou apenas resolveu dar uma chance para que ele parasse de insistir.


O combinado, por e-mail, foi que ele buscasse a moça em sua casa às  21h daquela noite escuríssima de sábado. Malandro que era, Felício colocou alguns neons verdes em seu Fusca branco e acelerou no ritmo de Adele até a moradia de Genuína que ficava a, bem, cinco metros de distância de onde ele vivia. 

Aos olhos do apaixonado ela estava estonteante, lindíssima, maravilhosa, um pedaço do céu que morava logo do lado. Para quem via sem estar cegamente em transe, ela parecia que tinha pego o primeiro lugar na fila do Baile de Fantasias para o Dia das Bruxas. Seus trajes pretos e seus cabelos volumosos davam a impressão que a moça tinha recém saído do caixão. Já Felício se vestia feito um cantor de funk de primeira, o que não exige qualquer descrição.


E lá estavam eles, acelerando aquele Fusca envenenado e indo para um destino que nem o capeta sabia qual era. Mas é óbvio que em um encontro como esses iria dar errado. A caranga começou a engasgar e os olhos de Genuína já estavam revirando.

"Ótimo! Você conseguiu o que queria. Agora estamos trancados aqui na frente deste maldito cemitério no meio do mato. Onde você estava nos levando, afinal?" - gritava.

O suor frio já escorria pela testa oleosa do pombinho:

"Ahn, bem, tinha um lugar muito legal a 20km daqui. Era uma cascata e eu tinha uma mesa com velas preparadas já" - explicou.


Ela nem deu bola. Não era o tipo de mocinha que se encantava por homens românticos. Cruzou os braços e ficou sentada com os beiços quase lá no chão. E ele já chorava. 

"Ah, eu não vou ficar aguentando um chorão aqui do meu lado. Vou lá fora, pelo menos deve ter um ar bom, além desse cheiro de perfume de catálogo" - disse a rabugenta.

Mas quando ela tentou abrir as portas, nada conseguiu. Pensou que era a droga do Fusca que havia pifado, mas ao olhar para o lado percebeu que Felício tinha saído enquanto ela reclamava das lágrimas que ele derramava no volante. 


Ela olhou para um lado, para outro e notou que não tinha mais ninguém ali. A escuridão era total. Nem o cemitério dava tanto medo como o negrume que estava na frente de seus olhos. Sabe o que é não enxergar nada? 

Agora quem chorava era Genuína. E suas lágrimas corriam como cascatas no meio do mato. E então uma criatura bizarríssima apareceu na janela do Fusca. A moça tentava sair do carro, mas era tudo em vão. A figura tinha uma máscara completamente deformada e segurava uma caixinha na mão. De repente tudo se iluminou ao redor deles, a criatura tirou a máscara e lá estava Felício, mostrando um anel.

"Quer casar comigo?" - disse-lhe.

"Com certeza. Não" - retrucou.
 
Depois disso, Genuína virou Freira e obrigou as irmãs não permitirem visitas ou que ela sequer olhasse para fora. Felício se suicidou.

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