segunda-feira, 7 de maio de 2012

O garoto que esqueceu o presente de Dia das Mães


José Manuel Miguel era um rapaz muito desligado, sempre aprontava altas confusões com seus amigos de internet. Entrava no Orkut dia após dia e ficava zoando todos os usuários da extinta rede social. “Manu”, como gostava de ser chamado, não desligava o olho da internet e tinha por determinação criar o máximo de imagens engraçadas possíveis para fazer muito sucesso no mundo virtual. Também era extremamente chato quando o assunto era convivência. Odiava fazer amigos reais, brincar com os coleguinhas após a aula, jantar em família ou dar umas bitoquinhas. Sempre fora um garoto cheio de vergonha. Mas não pela falta de coragem, mas sim, pelo alto nível de babaquice que consumia o seu ervílhico cérebro.


O menino tinha uma mente tão avoada que precisava de um despertador a cada uma hora para, então, lembrar-se de que precisava tomar água. Várias vezes deixou o seu celular tijolão sem bateria e pegou-se no hospital dias depois, internado, pois estava ficando desidratado. Sua mãe, Jaiminha, adorava o filho, apesar de todos os problemas que ele vinha passando. Será que é tudo minha culpa? Justo minha? Aquele bastardo do Germinho teve que me deixar sozinha? É um inferno mesmo. Ficava pensando a Mãe, enquanto sentava com sua enxaqueca e nervo ciático tomando conta de todo o seu corpo.

Após sair do hospital, Manuzinho voltou ao que era antes e nem deu pelota para o que sua querida mãe tinha a dizer, ou pelas lágrimas que os olhos da pobre criatura derramaram naquelas noites frias ao lado do leito do filho. O garoto passou madrugadas em frente ao seu super computador jogando tediosos games. Ele realmente não se lembrava que o Dia das Mães estava perto.

Já Jaiminha não se importava mais se ganhasse presentes ou não, ela somente gostaria de um abraço daquela estúpida criatura que chamava de filho. Lembrando, que chamar de “estúpido” era uma forma de dizer “eu te amo” na linguagem daquela família enlouquecida. José Manuel Miguel nunca havia chamado sua mãe de estúpida. Na verdade, eram poucas as vezes que ele dirigiu a palavra para a matriarca da casa. Na maioria das vezes só conversava com ela quando precisava de dinheiro para investir no Tíbia, famoso jogo de internet. Estúpida como era, Jaiminha sempre dava mais de R$ 100,00 para o malandro filho.

Por muitas vezes ela pensou: Vou dar muito mais dinheiro e então ele vai comprar o que precisa e depois vai fazer um lindo gesto e me dará um presente. Novamente estava errada. O garoto salafrário usava todas as cédulas para gastar mais ainda em seus jogos. Era a única esperança: receber algo carinhoso do seu filho, mesmo que fosse com o dinheiro do salário que ela conquistara. A loucura de seu oriundo transformou a progenitora em uma coitada senhora, tendo que lidar sozinha com os problemas daquele em que deu a vida. O vício do menino já estava se tornando mais perigoso que qualquer droga existente em todo o planeta Terra. 

Em um belo dia ensolarado de sábado, 13 de maio, o pequeno Manu foi até o supermercado (ainda estamos tentando achar a explicação lógica para este evento ter ocorrido. Se alguém tiver respostas, favor entrar em contato e esclarecer), deslizou com o carrinho em mãos até a área de frutas (precisamos de uma explicação para esta também) e pegou uma sacolinha que estava pendurada no balcão. Com calma, começou a encher aquele frágil pedaço de plástico com lindas e vermelhas maçãs, colhidas do pé e levadas diretamente ao departamento de frutas daquele estabelecimento. José Manuel Miguel cantarolava de forma incrivelmente desafinada a música introdutória do desenho animado mais legal de todos os tempos:


Seu sorriso é tão resplandecente
Que deixou meu coração alegre
Me dê a mão,
Pra fugir desta terrível escuridão

Ele adorava Dragon Ball GT. Mas não era isso que realmente importava naquela hora, o fato marcante do momento, naquele segundo foi que, ao balbuciar os versos da canção, o garoto viu-se chorando como uma menininha que tem sua boneca quebrada por um amigo muito chato. Então seus olhos se livraram da escuridão e ele conseguiu ver pais andando juntos, filhos escolhendo os presentes para as suas amadas e devotadas mães. Ele olhou para o seu lado esquerdo, subiu um pouco a cabeça e visualizou uma enorme placa que dizia:

DÊ UMA FLOR PARA OUTRA FLOR. FELIZ DIA DAS MÃES: 13 de Maio de 2012.

O garoto olhou para o relógio digital do Pokémon, analisou os braços do Ash (que serviam como ponteiros) marcando 23:30h do sábado anterior ao DIA e ele não tinha comprado o presente. O desespero tomou conta daquela criança que só sabia sair correndo de um lado para o outro, derrubando todas as coisas do supermercado e sendo chutado para fora do local por um segurança que se achava o Chuck Norris (o que era uma meia verdade, já que o homem usava um crachá escrito Tchuquinorris da Silva). 

Triste e todo ensanguentado, Manu foi para casa derramando cachoeiras de lágrimas. Ao chegar perto do pátio, viu dezenas de luzes azuis e vermelhas piscando e sua mãe com um lenço em mãos. O menino, desamparado, saiu em disparada para os braços de sua querida Jaiminha (o relógio marcava meia-noite) e disse em alto e bom tom: “Eu não fazia ideia de que você esperaria por mim. Você é estúpida” - disse o garoto rindo e chorando ao mesmo tempo.

“Não. Você é estúpido. Aliás, nós somos as duas pessoas mais estúpidas que esse mundo já conheceu” - chorava a mãe.

“Feliz dia das mães” - disse, finalmente, o garoto.

E este teria sido o melhor presente daquela mulher, se ela não estivesse ao lado de seu filho, na cama do hospital, tendo um sonho, enquanto o esperava acordar de sua desidratação.

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