quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A volta do homem dos quadros

Sentado na sua imensa sala estava um homem velho e irritante. Sua lareira flamejava a cada pedaço de papel que ele jogava em meio a todas aquelas chamas vermelhas. O homem não tinha amigos, não tinha amor. Ele somente observava e controlava todos da sua cidade. Quando olhava-se no espelho era possível perceber a máscara que cobria a metade de sua face, criando um desenho perfeito do lado direito que faltava. Ficara desfigurado durante uma guerra quando escapara por pouco de uma explosão.


Dificilmente saía de sua poltrona negra de um couro finíssimo. Seus empregados traziam comidas e bebidas todos os dias: costelas de porco ao molho de champignon e vinho doce da melhor safra que existia. Quando precisava, eventualmente, resolver algum problema, aí ele vestia um casaco que ia até seus pés e um belo chapéu branco que cobria boa parte da sua face com uma sombra medonha.

Em sua sala, centenas de quadros estavam espalhados. Cada um representando vidas diferentes, vidas que ele tirara de outras pessoas. Ele as congelou durante anos e anos e ficava observando sua glória todos os dias. Cada rosto mostrava o medo do último segundo antes de ficarem eternamente aprisionados. Com uma risada cruel, o velho homem exclamou:

"O poder de viver outras vidas me foi dado, agora todos vocês merecem estar onde estão".

Ele também estava preso em um quadro, mas não se lembrava o que acontecera. A única forma de continuar sendo imortal era saltando de história em história, de lembranças em lembranças. Quando criança, conhecera um homem que lhe dera a oportunidade de continuar vivo, porém agora não tinha mais interesse na sua infância. Pensou que tivesse sido abandonado para sempre.

De repente, uma luz grandiosa saiu do lustre apagado em sua sala e um ser incrível apareceu na sua frente: o mesmo homem, vestindo agora um sobretudo marrom e uma gravata borboleta, seus sapatos eram brancos como a neve.

Nesse momento, o velho da cadeira relembrou que seu nome era James e que havia sido salvo no dia 12 de outubro de algum ano. Ele percebeu como a sua vida mudara e decidira nunca mais atrapalhar ninguém, mantendo-se eternamente fixo em seu empoeirado quadro. 

__

Quer saber como foi a primeira história? Clique aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário