quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Uma luz bem no meio do nada

A escuridão naquele vasto campo deixava até o animal mais forte do universo com medo. O frio poderia cortar a pele de qualquer ser vivo em apenas um segundo, mas não havia nem ao menos um floco de neve naquele local. O campo era vasto, a grama de um verde que causaria cegueira à luz do dia, mas o que impressionava mesmo é que nunca amanhecia, a noite tomava conta desde que o Mundo havia nascido. Não faltavam árvores para cercar toda aquela imensidão, além de grandiosas pedras do tamanho de montanhas que serviam para proteger contra qualquer ameaça que por ventura pudesse querer se aproximar.


"Totalmente abandonado". Essa era a frase que percorria todo o território, cada letra desenhada perfeitamente no chão. Lendas dizem que a grama crescera formando as palavras, nenhum ser humano havia feito aquilo com as próprias mãos. Mas outra coisa que realmente incomodava era o fato de uma luz branca estar piscando bem no centro de toda aquela circunferência, e também era impossível chegar perto dela. De longe, parecia que estava no chão, e de perto ela dava a impressão de estar no espaço, como uma estrela.

David estava dormindo e vira um reflexo muito forte na parede do seu quarto, ele não acreditava em reflexos, nunca vira um, achava que eram coisas que contavam em filmes ou em textos de teorias de conspiração. Ele chegou perto e tocou, como todo menino de 12 anos faria. Eis que em um segundo estava bem no centro da grandiosa bola de energia do grande campo abandonado. Dentro, ela era fantasticamente incrível: tinha uma cozinha, uma sala com centenas de comidas prontas na mesa, quartos com beliches, uma piscina bem no centro. Ele poderia dizer que estava sonhando, mas o gosto do bacon não confirmava isso.

O garoto passou anos ali, pelo menos era o que ele imaginava, mas sentia que não queria ficar sozinho durante toda a sua vida. Sua idade era 18 e, apesar daquilo tudo ser extraordinário, ele sentia falta de sua família. Com o tempo ele aprendera a andar com a bola de luz para um lado e para o outro, porém ela nunca atravessava as pedras, impossibilitando sua ida para casa. Ele sabia que seria necessário encontrar o reflexo do seu quarto e então conseguiria retornar.

Lá não havia espelho, nada. Para David era o lugar perfeito para morar, mas agora já não se sentia tão feliz com isso. 

Muitos outros anos se passaram, e sua idade já estava alcançando os 85, seu aniversário era naquele dia. Caminhou lentamente e ficou sentado com os pés dentro da piscina. Pensou: "onde diabos vou encontrar um reflexo?". Depois de duas horas no silêncio, seus olhos encheram-se de lágrimas e então ele percebeu que podia se ver na água brilhante daquela velha piscina. Sem pensar, mergulhou e lá estava ele, no seu quarto, gritando para que a sua mãe limpasse o xixi que ele fizera.

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