quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O homem dos quadros

O cenário era caótico naquela pequena casa abandonada. As almofadas rasgadas, brinquedos quebrados e com impressão de estarem há muito tempo sem ninguém para utilizá-los. Apenas uma lâmpada estava acesa, mas ela piscava tanto que não demoraria para que a escuridão tomasse conta do lugar. Não era a toa que ninguém jamais ousava a se aproximar do local. Por fora a casa tinha a impressão de ter sido queimada completamente, mas continuava em pé, com o mesmo formato. Era de madeira, estranhamente bizarra, os dois lados do teto subiam desde o chão e se encontravam no topo, formando uma pirâmide, ou quase isso.


O pátio não poderia ser pior. Havia uma calçada de pedras totalmente desalinhada e ao lado, onde antigamente a grama crescia, via-se somente barro e minhocas. Ninguém mora ali, diziam os habitantes da pequena cidade, porém as autoridades não tomaram coragem de derrubar a casa e construir o prédio que estava em projeto há muitos anos.

O mais interessante é que, sim, alguém vivia naquele lugar. James era uma criança de mais ou menos dez anos e estava completamente sujo de poeira e barro. Ficava deitado o dia inteiro do lado da antiga lareira que uma vez aquecia seus hóspedes. O garoto perdera os pais, mas não se lembrava quem eles eram.

No calendário da parede apenas uma data era marcada com um pedaço de carvão: 12 de outubro, dia das Crianças. Também a data em que ele aparecera misteriosamente naquele lugar, sem ao menos saber como isso havia acontecido. James lembrava de estar brincando em casa com os presentes que ganhara: dois carrinhos que viravam robôs e uma bola de futebol da última Copa do Mundo. E em um piscar de olhos ele já estava deitado no barro.

Triste por não poder se divertir como antigamente, o garoto ficou olhando um quadro muito antigo de um homem muito velho. Ele carregava uma bengala e usava um terno com gravata borboleta, muito legal, por sinal. James o observou e percebeu que o senhor também começou a lhe encarar. Não acreditando, mas querendo ter fé que isso fosse verdade, a criança disse: "Você está vivo?".

"Sim".

Subitamente, o velho homem saiu da imagem com uma luz e apareceu na frente de James. O misterioso senhor bateu a bengala três vezes no chão e eles foram parar em uma sala branca, cheia de quadros. Cada quadro representava um momento da vida do garoto e ele podia se ver em cada um deles. O homem falou que era possível entrar em qualquer um, mas que ele viveria somente aquela cena e nunca mais poderia trocar de lugar novamente, ficaria repetindo sempre a mesma coisa. James pareceu confuso, mas não questionou.

"Você pode viver em uma destas imagens ou vir comigo, andar em todos os quadros de todas as crianças, viver  tantas outras vidas, de qualquer pessoa do mundo" - disse o velho.

James não entendia o que estava acontecendo, mas viu que nunca mais seria possível voltar ao que era antes. Decidiu que iria contemplar o 12 de outubro eternamente.

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