quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Graystone #5.1: Tudo estava dando certo... estava

Ele andou, pelas suas contas, uns 10km e se enfiou dentro de uma névoa gigantesca que estava no final da estrada. A cidade tinha apenas uma rua e tudo em volta era exatamente igual ao que ele vira no início do caminho: bares - que agora eram templos -, casas caindo aos pedaços, e aqueles postes com o lampião pendurado. Peter estava pensando que tudo aquilo o deixara louco, mas depois que a névoa se desfez por um momento, ele pôde perceber que nem tudo era tão repetitivo. Havia uma mansão de madeira extremamente podre, ela estava no centro da estrada, o que indicava que era impossível passar para o outro lado a não ser que alguém derrubasse a enorme casa. Seria muito interessante se alguém botasse tudo aquilo abaixo e construísse um prédio ou um parque aquático por ali, mas ninguém devia estar tão interessado.


Apenas um portão torto separava a mansão da rua esburacada. Estava aberto, e a curiosidade do garoto só aumentava mais e mais, depois do bar/templo, tudo chamaria a atenção de um menino cheio de ideias. Ele entrou, atravessou um corredor de pedras e viu que ao seu lado muitas plantas estavam mortas, assim como a grama cheirava a esgoto.

Bateu na porta e, como imaginou, nada aconteceu. Girou a maçaneta e percebeu que estava destrancada, não sabia dizer se isso era sorte ou um grande azar. Entrou e viu uma enorme sala escura com alguns quadros na parede, ao passar seus olhos pelo local, viu que haviam os mesmos símbolos da casa de Robert e das cartas do homem barbudo, entalhadas na parede. Os desenhos eram difíceis de decifrar, mas ele tentou: algo como uma cabeça de cabra com um brinco no chifre; um homem todo desfigurado segurando uma espécie de cajado; uma jarra que continha a cabra desenhada; um casco de boi; e uma imensa moeda com todos os símbolos anteriores dentro dela, provavelmente era o mais importante.

Peter resolveu não procurar mais coisas estranhas naquela noite. Deitou em um sofá estragado que estava no centro da sala e dormiu durante horas. Não sonhou e nem percebeu o dia clarear, pois isso não aconteceu. Olhou para o relógio e notou que era duas horas da tarde, mas lá fora tudo estava completamente escuro como se fosse ainda madrugada. Diferente da noite anterior, muitas pessoas caminhavam pela rua, mas nenhuma chegava perto da mansão onde ele estava, algo lhe dizia que a casa era proibida para os habitantes do local.

Saiu e pensou em conversar com quem passava na rua. Resolveu perguntar se alguém sabia onde ficava Graystone. Quando aproximou-se de uma senhora, ela saiu correndo, todos os outros fizeram o mesmo, deixando a rua completamente vazia. Voltou para dentro.

Peter adentrou na casa e logo viu que tudo estava diferente: a sala estava limpa, os entalhes da parede não eram mais de madeira, agora eram grandes peças de ouro colocadas dentro de uma moldura com detalhes em diamante. O sofá tornou-se uma poltrona de couro, e uma escada em espiral fora construindo-se bem no momento em que o garoto observava. Encantado por tanta beleza, foi subindo os degraus como se estivesse em uma espécie de transe. Havia uma porta que levava diretamente para o sótão na qual Peter empurrou, e uma escuridão sepulcral tomou conta do menino que agora percebera novamente onde estava. Olhou para baixo e nada via, olhou para cima e também não conseguiu enxergar. Resolveu subir e ver o que lhe aguardava.

O local não tinha nada muito incrível, nem muito assustador, era apenas um sótão que ele imaginava ter na casa da avó, se tivesse uma. Deu uma olhada, encontrara alguns brinquedos, uma vassoura jogada em um canto e quadros quebrados sem fotografia. Estava decidido que iria descer quando pisou em algo que estava meio frouxo, percebera que o chão não era firme. Um fundo falso. Tentou, com alguma dificuldade, destampar e ver o que poderia ter ali. Puxou o pedaço de madeira para cima e uma luz dourada invadiu o lugar, então ele colocou a mão no fundo e pegou algumas moedas de ouro. Elas eram detalhadamente incríveis: perfeitamente redondas, os desenhos eram os mesmos que estavam naquela grande moeda entalhada no andar de baixo. Percebeu, então, que se tratavam de miniaturas do símbolo desconhecido.

Pegou todas. Não se importou com o que poderia acontecer, pois estava com fome e pensou que aquele tesouro valeria muito na cidade onde ele vivia agora. Desceu as escadas correndo, passou pela sala, abriu a porta e saiu em disparada para o primeiro mercado que encontrasse pela frente. De tão feliz e distraído, não notara que o sol aparecera e que caía muita neve, mesmo sendo verão. Olhou para os lados e encontrou um armazém que se chamava “Abasteça-se”. Lá encontrou maravilhas: desde pães de mel recém saídos do forno, todos os tipos de cafés, bolos de chocolate com morangos, diferentes tipos de massas. Definitivamente, Peter pensou que estava no céu. Encheu o carrinho de compras e foi pagar. Chegou no caixa, e um homem pequenino, com óculos pendurados no nariz e uma barba que ia até os pés perguntou:

- Paga com dinheiro, moço?

- Er... sim. Dinheiro.

- São 140 douradetas.

- Doura o quê?

- Douratedas, nossa moeda, moço.

- Ah. Acho que isso serve.

Peter jogou umas dez moedas douradas que pegara no sótão da mansão do fim da rua e colocou em cima do balcão, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. O pequeno homem o olhou como se estivesse admirando algo extraordinário, talvez celestial. Ajoelhou-se e reverenciou:

- Filho de Augor! Que orgulho tê-lo em minha humilde loja!

- Augor? - Peter não sabia mais o que estava acontecendo.

O homenzinho saiu de sua loja tropeçando em seus próprios pés e gritou para todos da rua:

- FILHO DE AUGOR ESTÁ PRESTIGIANDO NOSSA CIDADE HOJE!

As pessoas começaram a correr até a entrada de “Abasteça-se” e abaixavam-se exclamando:

- Oh, filho de Augor, ouça nossas preces.

- Er... acho que ocorreu algum engano aqui. Eu encontrei essa cidade sem querer, ela apareceu na minha frente. Nem sei quem é esse tal de Augor.

Agora todos choravam, parecia que o que Peter tinha lhes falado os comovera ainda mais.

- A cidade só aparece para quem tem descendência do nosso chefe maior. O GRANDE MESTRE AUGOR! - gritou um homem barbudo no fundo da loja.

- Me desculpem, mas...

No mesmo instante dois garotos puxaram Peter pelos braços e o levaram para uma cabana abandonada.

- O nosso pequeno mestre aqui precisa descansar. Vamos o levar para seus aposentos. - Disseram os meninos.

- VIDA LONGA AO FILHO DE AUGOR. - cantavam as pessoas.

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