quarta-feira, 27 de julho de 2011

Graystone #4: A cidade


O som havia sido muito forte, e um clarão que faria qualquer pessoa cega em poucos minutos invadiu a barraca onde Peter estava. Ele fechou os olhos e cobriu-os com o travesseiro, mesmo assim era possível enxergar um pouco de luz entre as frestas. Nunca vira nada parecido. Aos poucos foi percebendo que a escuridão voltara e os grilos começaram a criquilar novamente, tudo parecia tão quieto como se nada tivesse acontecido. O garoto, extremamente assustado, levantou-se e abriu o zíper da barraca cuidadosamente, olhou para fora e nada havia, nem mesmo um sinal de Robert por ali.


A curiosidade já estava tomando conta do menino, que não se importou com qualquer perigo e saiu para observar o campo enorme ao redor dele. O homem que lhe buscara em sua casa há alguns dias não existia mais. Agora o desespero já era realidade, o que Peter poderia fazer? Ele não sabia o caminho até Graystone, e pensar na possibilidade de voltar todo o percurso era impossível, já que ele não fazia ideia como retornar. Restava seguir em frente, ou aguardar outro clarão para que ele fosse levado embora também, na esperança de achar Robert em algum lugar.

A noite fora extremamente triste, o pobre garoto apenas pensava em como continuar sua jornada, mas nada o fazia acreditar que conseguiria concretizar o sonho de conhecer a melhor cidade do mundo. Ele não tinha comida, não tinha água, nem mesmo árvores frutíferas haviam ali por perto. Enquanto dormia, sonhou com muitas coisas aleatórias: homens caçando, casas e prédios abandonados e cheios de ruínas, pessoas chorando, e uma luz descomunal perseguindo ele dia após dia. 

Quando acordou, passou a mão nos olhos e percebeu que eles estavam extremamente molhados, provavelmente por ter chorado durante toda a noite. Peter nem se lembrava mais do que o homem, agora desaparecido, lhe contara dias atrás em sua casa: ele tinha 30 anos já, porém com alguns problemas de desenvolvimento que o faziam ficar com nove para sempre. Graystone era a única esperança de cura para isso. Por este motivo, ele continuava agindo como uma criança e não conseguia pensar em uma solução para tudo o que estava enfrentando. Como poderia? Nunca tivera uma família para lhe auxiliar nas pequenas coisas da vida, não seria fácil passar por tudo isso sozinho.

Ele levantou, andou alguns metros do lado de fora da barraca e decidiu continuar o caminho. Não tinha escolha, era a única - e racional - chance de ter algo melhor ou piorar tudo. Pensou:

“Se eu nunca tive nada, ninguém nunca me ajudou e eu estou vivo até hoje, significa que algo está sendo reservado para mim. Não vão ser alguns quilômetros que irão me matar.”

Peter andou, andou e andou mais um pouco. O cenário ao seu redor era sempre o mesmo: um campo verde gigantesco, parecia infinito; algumas flores distribuídas aleatoriamente pelo chão; montanhas de porte médio que subiam e desciam em perfeitas ondulações. O sol deixava tudo incrivelmente brilhante, e isso era a única coisa que fazia o garoto continuar persistindo.

Ele resolvera parar um pouco para descansar. Não preparou barraca, nem nada, apenas sentou e observou o vasto gramado que o tornava um pequeno ponto no meio daquilo tudo. Ficara ali durante horas, contemplando as belezas que a natureza havia preparado para ele, por alguns minutos estava se sentindo a pessoa mais sortuda do mundo, pelo simples fato de poder ver aquela imensidão toda somente para ele. 

Dormiu.


Não teve sonhos, nada atrapalhou seus pensamentos subconscientes naquele momento. Quando acordou viu que era noite, o que o fez ficar um pouco assustado, mas isso nem o assustara tanto assim, pois ao abrir os olhos percebera que logo acima dele havia um poste de luz muito antigo com um lampião pendurado nele. Como era possível? Ele não se lembrava de ter visto isto quando chegara ali. E de fato, nada tinha. Agora lá estava, brilhante, com moscas voando e batendo no vidrinho da lanterna. Levantou e arrancou o objeto do poste.

Ainda sentia a grama nos seus pés, nada parecia ter mudado a não ser pela luz que aparecera inesperadamente. Porém, enquanto andava e iluminava as coisas em sua volta, foi notando algumas coisas estranhas: calçadas se formando, um asfalto totalmente esburacado, uma grande carreira dos mesmos postes enfileirados perfeitamente dos dois lados da rua, casas de madeira envelhecidas. Estava, definitivamente em uma cidade, mas tudo era estranho, não tinha ninguém lá. Apenas ele, apenas a iluminação da estrada, nem um sinal de vida naquele lugar. 


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