sábado, 26 de março de 2011

Entrevista com Daniel Pigatto - Japão e a tecnologia

O mais recente desastre natural ocorrido no Japão proporcionou mudanças singulares em todo o mundo. As pessoas são extremamente dependentes das tecnologias criadas no país, eles vivem disso. Prédios enormes que sequer moveram-se, robôs que são capazes de fazer tudo. As consequências? Milhares. Para isso, conversamos com Daniel Fernando Pigatto graduado em Ciências da Computação pela Universidade Regional Integrada e atualmente cursando mestrado em Ciências da Computação e Matemática Computacional na USP, fala sobre os problemas causados pelo terremoto do Japão no campo tecnológico.



1. O que você tem a dizer sobre os acontecimentos no Japão?

Estragos gerados pela natureza são algumas vezes catastróficos, e apesar de tecnologicamente avançadas, nossas previsões não nos dão muito tempo hábil para tomar medidas de precaução. O caso do Japão é um ótimo exemplo. Apesar de ser um dos países mais preparados do mundo para enfrentar terremotos e até mesmo tsunamis (um termo criado pelos japoneses), o que a mídia nos mostra é uma situação de calamidade pública, cidades completamente destruídas, muitas pessoas mortas. Por mais que pesquisadores avancem quanto às previsões, o desequilíbrio ambiental e até mesmo fenômenos naturais ainda são capazes de causar muita destruição antes mesmo do ser humano começar a tomar medidas.

2. Sabemos que o Japão é um dos países que mais trabalha com tecnologia: desde computadores até mesmo robôs com múltiplas tarefas. Na sua opinião, os desastres naturais ocorridos recentemente podem prejudicar os avanços tecnológicos do país?

Se analisarmos questões financeiras, concluímos que o Japão sofrerá com sua economia de um modo geral, e certamente isso inclui a questão do investimento em tecnologia. Apesar disso, grandes centros de pesquisa e desenvolvimento continuam inteiros, produzindo, pesquisando, criando. Respondendo especificamente a pergunta, haverá prejuízos tecnológicos com certeza, mas acredito que o país tenha forças suficientes para recuperar-se.

3. Um fato que comprova esta mudança drástica no meio tecnológico é a grande queda de preços que os produtos: Sony e Panasonic cairam,  8,86%, a 2.324 ienes, e 11,27%, a 866 ienes, respectivamente. Já a marca Toshiba parou completamente os trabalhos enquanto nada se resolve. Será mesmo que uma potência como o Japão poderá dar a volta por cima e, junto com as empresas, voltarem ao ritmo anterior?

A cultura do povo japonês foi a principal característica apontada pelos telejornais, jornais impressos, portais de notícias etc., que mostraram um povo de fibra, que não gosta de demonstrar desespero, medo e que prefere trabalhar para recuperar o que perdeu. Devido a esta característica daquele povo é que acredito na volta por cima dessa potência. É comum no meio tecnológico a conquista de exorbitantes quantias monetárias com o desenvolvimento de produtos que revolucionam determinados segmentos. E o Japão é um exemplo de criatividade, com produtos que mudam o mundo. Na minha opinião, os japoneses serão capazes de recuperar os prejuízos e se reestabelecerem no mercado em alguns anos.

4. O meio de comunicação mais efetivo foi a internet. Mesmo com todos os problemas gerados pelo desastre, as pessoas ainda assim conseguiam acessar as redes sociais, até mesmo publicavam seus vídeos. Podemos dizer que no futuro a internet poderá tomar conta no que diz respeito à comunicação? Principalmente se tratando de tragédias?

O Google é um excelente exemplo do poder da Internet. A empresa criou uma página especial que auxilia nas buscas por informações a respeito de parentes/amigos desaparecidos. Qualquer pessoa que possuir informações pertinentes pode inclui-las no serviço e torná-las disponíveis ao mundo. Outro bom exemplo é o Twitter, rede social que vem mudando a forma de comunicação entre as pessoas na Internet. No caso do Japão, a rede social serviu para sensibilizar o mundo, disseminar informações em tempo real e auxiliar na coleta de donativos, consequentemente. Aos poucos, a inclusão digital está reduzindo o uso de celulares, diminuindo a audiência de canais de televisão e substituindo jornais e revistas impressos. Ora, se a informação online é muito mais ágil, pode unir todos os benefícios dos meios de comunicação citados, e ainda permite uma maior interação por parte do usuário, é difícil imaginar o futuro da comunicação sem colocar a Internet como principal fator. Até mesmo se analisarmos a ideia da televisão digital poderemos encontrar uma forte semelhança com o computador ao qual estamos acostumados, afinal, trata-se de um dispositivo que nos permitirá ver as programações normais das emissoras de televisão, interagir com elas, responder enquetes, baixar aplicativos, efetuar compras e acessar sites disponíveis na Internet. Em outras palavras, trata-se de um computador com foco em televisão. Sem dúvidas, a Internet já influenciou muito as gerações atuais e vai influenciar ainda mais as futuras. Arrisco dizer que ainda não conhecemos realmente o significado da palavra globalização.

5. Além das redes sociais, quem contribui muito com os desastres são os grandes sites, como Google e Apple. Ambos, além de muitos outros, criam em suas páginas links para doar. Em apenas um clique é possível ajudar, mesmo que doando pouco, muitas pessoas. Você concorda que a internet possibilitou maior velocidade e facilidade para ajudar quem precisa?

  Sem sombra de dúvida sim. As grandes corporações têm de ser solidárias, apresentar responsabilidade social, e disponibilizar suas infraestruturas para ajudar o mundo e, consequentemente, seus clientes. Afinal, se o mundo é afetado e sofre com problemas na economia, certamente estas empresas terão problemas regionalizados para seus negócios. Em se tratando de Google e Apple, já que foram citados na pergunta, perdas em pequenas regiões geográficas podem significar perdas de quantias monetárias certamente consideráveis. E para estas empresas, o mercado japonês é gigante e muito importante.

6. Os japoneses, que são pessoas extremamente unidas, constroem e criam novos produtos como ninguém. Essa união transforma o trabalho em grupo produtivo e incrivelmente criativo, vide os prédios que sequer se moveram com os terremotos. Em função disso, será que o povo não ficará cada vez mais com incentivo de lutar e criar novas tecnologias que ajudem em casos como estes? Algo que torne grandiosos desastres em algo “simples” de resolver?

O meio acadêmico e as empresas que se envolvem em pesquisa sempre têm uma motivação para realizar determinado trabalho. Essa motivação quase sempre é financeira, subsidiada por órgãos governamentais ou empresas privadas, para resolver problemas sociais. Nós brasileiros não temos grandes exemplos deste tipo de investimento, mas países de primeiro mundo prezam pela qualidade de vida do seu povo, investem em segurança, saneamento básico, inclusão digital, modernização, alternativas ecologicamente corretas. O envolvimento da tecnologia na invenção, no desenvolvimento e na construção de “fortalezas” para proteger o povo e os bens existentes é uma certeza. Dificilmente uma profissão hoje não envolve tecnologias para automatizar procedimentos repetitivos, gerenciar máquinas inteligentes e acelerar o resultado final. Certamente as gerações atuais, que sofrerão consequencias ao longo dos próximos anos, terão incentivo para criar soluções para problemas que prometem ser cada vez mais corriqueiros.

7. Para finalizar, como você vê a influência da tecnologia Japonesa para o mundo como um todo? Quais os benefícios e possíveis malefícios para toda a população?

Trata-se de uma tecnologia que atinge o mundo inteiro, com velocidades diferentes, mas atende. O Brasil, por exemplo, não costuma receber novidades japonesas com muita velocidade. Pode ser por diversos motivos: pelos altos impostos cobrados, por cultura do mercado consumidor, que não corresponde a novidades ainda não consolidadas, por não possuir um poder de aquisição interessante para o Japão etc. São muitos fatores que podem definir, porém, mais cedo ou mais tarde, o mercado brasileiro sofre influência da tecnologia japonesa. E isso projeta-se para o mundo todo, afinal, a participação dos japoneses não conhece fronteiras. A respeito dos benefícios, trata-se de uma questão muito específica. Por exemplo, em se tratando do mercado automotivo, que é bastante competitivo, estes problemas no Japão podem acabar beneficiando empresas de muitas partes do mundo e prejudicando as japonesas. Torna-se necessário avaliar cada segmento, cada tipo de produto, mas, como trata-se de um problema na economia de uma potência, os quatro cantos do mundo presenciarão mudanças.

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